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Os pais precisam reinventar sua autoridade em tempos de quarentena

Maurício de Souza Lima

25/03/2020 04h00

Crédito: iStock

Todo adolescente tem duas características, em maior ou menor grau: sensação de onipotência e de invulnerabilidade. Isto é, acha que pode fazer tudo e que sempre se dará bem, como se fosse eterno, acima de qualquer perigo. Não falo por opinião própria, embora observe isso no dia a dia do consultório. Há uma explicação da ciência: tem a ver com a falta de maturidade de uma área cerebral na altura da testa, chamada córtex pré-frontal.

Ela é a última a ficar "pronta", por assim dizer, para a vida adulta. E é a responsável por uma capacidade que, sem dúvida, pessoas maduras têm — ou, quando não têm, não podemos acusar a sua massa cinzenta. Seria aquela de avaliar os riscos de uma situação e suas possíveis consequências.
Sem essa habilidade tão desenvolvida, alguns jovens podem não ter a real percepção dos riscos envolvendo uma simples saída em tempos de pandemia. Para muitos, é difícil enxergar qual o grande problema disso

Diante da necessidade de distanciamento social por causa do coronavírus, acredito que o córtex pré-frontal imaturo explicaria em boa parte as queixas que se tornam frequentes. Eu mesmo ando recebendo várias delas por meio da web e de mensagens do celular. Os meus pacientes nessa faixa de idade reclamam: "meu pai não entende e não deixa eu ir dormir na casa do meu amigo" ou, outro exemplo, "estou enlouquecendo porque minha mãe quer me trancar no apartamento enquanto todos os meus colegas estão na casa de fulano'. São sempre relatos assim, seguidos de argumentos como: eu não ficaria na rua e, sim, na casa de alguém; eu não estou indo para a balada lotada, mas para uma reunião com meia dúzia de carinhas da minha escola…

Noto que a ficha não caiu na cabeça de muitos jovens. Ok, na de muitos adultos também, mas, como especialista em saúde de adolescentes, vou focar apenas neles. E dizer que o confinamento é um teste para toda a família: chegou a hora todos se entenderem para a convivência não virar um inferno. E é também o momento para os pais segurarem as rédeas da educação com firmeza Pronto, já imagino: vão dizer que estou incentivando o autoritarismo. E não é nada disso. Apenas estou sendo franco, sabendo dos desafios que virão nessa temporada que ainda não tem data para terminar. Aliás, até essa incerteza aumenta a irritação dos adolescentes — quando voltarei a sair e a levar minha vida de sempre?

Nesse curto espaço do início da quarentena para cá, já vi pais assustados porque, com o filho em casa, descobriram que o rapaz fuma maconha — sim, a convivência trará à tona questões que todos precisarão discutir de um jeito ou de outro, das quais os adultos da casa nem desconfiavam ou faziam vista grossa. Na quarentena, prepare-se, dificilmente as coisas ficarão sob o tapete.

Também já vi adolescente acreditando em fake news, como uma informação falsa e perigosa que andou circulando por esses dias em grupos de jovens: a de que o éter seria capaz de matar o coronavírus. E — sem piada, aconteceu e é sério —, o menino resolveu fazer uma loló em casa. Claro, a história do éter matar o vírus não faz sentido. E aspirar a substância é extremamente danoso. Pior quando os pais se veem sem pulso para inibir esse tipo de atitude.

Em algum momento perdemos a autoridade, é um fato. E ela terá de ser reinventada em tempos de coronavírus. Não a autoridade à moda antiga, que dizia "faça assim porque quem manda aqui sou eu". Ela nem adianta, não tem cabimento. Mas a autoridade de quem é respeitado, reconhecido por ser alguém mais experiente e, vamos combinar, capaz de fazer as vezes do tal córtex pré-frontal.

Por causa dessa falta de jeito dos adultos, observo o caldeirão fervendo em muitas famílias. Sugiro o remédio de sempre: abaixar a temperatura das discussões e o tom de voz por meio do diálogo. E diálogo implica em saber ouvir — no caso, saber ouvir o seu filho. Só assim o pai, a mãe, enfim, o responsável pelo jovem poderá devolver uma opinião e ser ouvido também.

Se um estiver nervoso, melhor engolir o sapo e deixar para conversar depois. Atritos mais fortes não ajudarão em nada. Você não vai convencer seu filho de que não é bom sair de casa os berros. Inútil. Simplesmente não vai. E nem adiantará proibi-lo de qualquer coisa — ouvi casos de jovens tentando escapar pela janela de casa. Dá de tudo nesses tempos…

Só quero dizer que existe um caminho entre dar de ombros — e colocar a vida de todos em risco — e partir para a briga em família. Precisamos — dificil, com todos com os nervos à flor da pele — colocar um pouco de afeto na história. Lembrar que o filho não é um irresponsável, sem consideração por todos — guarde na cabeça que o tal córtex pré-frontal não está maduro.
Diga não sempre que precisar, mas de maneira serena, mostrando as razões, ouvindo muito. Querentena é um tempo de colocar a razão na frente da emoção.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

Blog do Maurício de Souza Lima