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Blog do Maurício de Souza Lima

Isolamento devido ao coronavírus não é férias: pais, fiquem atentos!

Maurício de Souza Lima

18/03/2020 04h00

Crédito: iStock

Por causa da pandemia provocada pelo novo coronavírus, você já sabe: a ordem é ficar em casa e diminuir ao máximo o contato presencial com outras pessoas. Por isso, escolas foram fechadas, faculdades também estão sem aula, shows e outros eventos acabaram adiados. Mas, sim, vamos admitir: a maioria dos adolescentes não apresenta sintomas ou, quando os apresenta, eles lembram os de um resfriado comum. E isso dificulta convencê-los do seguinte: nem por esse motivo eles estão deixando de transmitir o vírus para os outros, que podem não ter a mesma sorte. Para o pai, para uma vizinha, para o porteiro do prédio… Portanto, perigo!

Os pais devem ser firmes cobrando coerência e mostrando que não faz o menor sentido deixar de se expor aos colegas de sala de universidade ou de escola para se reunir com aquele grupo aparentemente pequeno de amigos, seja no bar ou na casa de um deles, seja um encontro de três ou quatro colegas que também estão sem aula ou uma festa com "apenas" uma dúzia de convidados — até coloco entre aspas esse "apenas" porque o número de contatos sociais nesse momento anda muito relativo. 

Ora, se o seu filho disser que irá encontrar duas ou três pessoas somente, como ninguém pode garantir o que elas fizeram na semana anterior e se cruzaram com alguém infectado, esse passeio já pode ser arriscado. Na verdade, o bom senso pede o máximo de isolamento social —e ponto. Não é agradável. Mas ele é a nossa arma para evitar o avanço da transmissão do coronavírus. E cada um que coloque a mão na consciência.

Mas de uma coisa tenho absoluta certeza: os pais devem ser ainda mais firmes impedindo que o adolescente faça visitas a quem tem mais de 80 anos. As complicações nessa faixa etária costumam ser seríssimas. Daí que, no contexto atual, é totalmente desnecessário visitar o avô ou a avó, por exemplo. Às vezes, os próprios mais velhos se queixam, fazem chantagem emocional. Vamos lembrar que existem alternativas: ensinar o idoso a se engajar em redes sociais, gravar vídeos, usar o Skype para matar a saudade dos netos ou até mesmo fazer as velhas e boas ligações telefônicas. O fato é que ninguém sabe como esse vírus poderá se espalhar na população mais idosa brasileira — se será igual ou pior do que estamos observando na Europa. Por isso, precisamos blindá-la e lembrar que os adolescentes podem levar o vírus em uma breve visita.

Outra recomendação importante —na verdade, importantíssima — é estabelecer horários de estudos como se os adolescentes continuassem indo para a escola ou para a faculdade. De preferência, os mesmos horários de antes, como se tivessem saído de casa para aprender. Alguns colégios estão oferecendo aulas online, mas sei que essa não é a realidade de boa parte dos jovens do país. Então, mais do que nunca, é preciso estabelecer uma rotina de estudos e garantir que ela seja executada. Especialmente no caso de adolescentes que irão, no final deste ano, prestar vestibular, porque naturalmente eles podem se ressentir mais dessa mudança drástica na forma de estudar por esses dias. Perder o foco, mais do que nunca, será perder matéria.

A falta de uma rotina pode levar a inúmeros problemas e não digo apenas escolares. O jovem pode continuar —como se ainda estivesse de fato de férias — se divertindo com joguinhos madrugada adentro. Será tentador. E na certa, então, perderá a hora para acordar. Consequentemente, almoçará tarde. Toda aquela adaptação aos horários da volta às aulas irá para o brejo. O sono será o primeiro a ser prejudicado. Preocupante. Primeiro porque isso tira o funcionamento do organismo do prumo em tempos nos quais todos precisam se manter fortes. Segundo porque um dia — omara que não demore tanto — isso vai acabar e será novamente aquele drama para o adolescente se ajustar aos horários.

A alimentação, no isolamento, tende a sair do equilíbrio. O jovem pode beliscar tranqueiras o dia inteiro em vez de consumir comida de verdade, caseira, no momento certo das refeições. De novo, como se estivesse de folga de obrigações, naquele espírito de que "nas férias tudo pode". Um desafio, portanto, é manter essas refeições com muita disciplina no mesmo horário de sempre e não encher a despensa de guloseimas. Vamos ser francos: bom para pessoas de qualquer idade não tê-las sempre ao alcance, porque pode, sim, bater um tédio e aumentar a ansiedade, com seus ataques de gula. 

Aliás, penso que não é de todo improvável, se a situação se estender —em princípio seriam duas semanas, mas quem garante? —, que o adolescente ganhe peso. E todos da casa também. Fácil isso acontecer, se a gente lembrar que existem indivíduos que ganham alguns quilos quando estão de férias, não é mesmo? Mas aí é que está, volto à estaca zero: não são férias.

Por falar em peso, outra questão é estimular a atividade física mesmo dentro em casa. Não dá para ficar esse tempão parado. O ideal seria o adolescente encontrar maneiras de fazer exercícios, nem que seja seguindo treinos online. E, de novo, só para reforçar: mantendo os horários de refeições, de sono e de estudo, comer mais do que nunca alimentos saudáveis e naturais, até pela questão imunidade. 

E já que, no caso de quem tem funcionários ajudando nas tarefas domésticas, eles vêm sendo dispensados —  o que é muito justo —, aproveite para, nessa nova rotina que tenta ser normal em dias anormais, fazer uma divisão dos afazeres da casa, sem deixar os adolescentes de fora.

O isolamento, enfim, pode ser uma excelente oportunidade para um jovem aprender a se organizar, a ter mais foco, a colaborar com o dia a dia da família e a perceber uma lição que outros indivíduos vêm aprendendo um tanto tardiamente: nossas atitudes podem impactar a saúde de toda a sociedade, para não dizer de toda a humanidade.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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