Blog do Maurício de Souza Lima http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br Aqui, Maurício de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Wed, 16 Oct 2019 07:00:26 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Cerveja é bebida fraca? Jovens precisam rever seus padrões de álcool http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/10/16/cerveja-e-bebida-fraca-jovens-precisam-rever-seu-padroes-de-alcool/ http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/10/16/cerveja-e-bebida-fraca-jovens-precisam-rever-seu-padroes-de-alcool/#respond Wed, 16 Oct 2019 07:00:26 +0000 http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/?p=629

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Recentemente tive uma conversa com a Erica Siu, coordenadora do CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool), uma organização não governamental que se destaca como uma das principais fontes no sobre o tema no país e gostaria de compartilhar com vocês uma impressão que nós dois temos em comum.

Alguns jovens acham que não há problema em tomar muita cerveja no final de semana. Pensam que a cerveja é leve e bem diferente de uma vodca, por exemplo. E seria ainda muito mais fraca do que a cachaça de uma caipirinha. Enfim, na cabeça deles, o bar se divide entre bebidas fortes e fracas, sem a menor noção de um conceito importante nessa história: o da dose padrão.

A dose padrão é a unidade de medida que corresponde à quantidade de etanol puro contido em qualquer bebida alcoólica. Varia um pouco conforme a instituição que fez o cálculo. Para a OMS (Organização Mundial de Saúde), uma dose padrão seria cerca de 12 gramas de álcool puro e essa tal dose, claro, difere de bebida para bebida. Outros chegam a falar em 14 gramas de álcool puro. Não há um consenso absoluto cravando a quantidade de etanol, mas é por aí sempre.

Uma lata de cerveja ou um chope de 330 mililitros contêm essa dosagem de álcool. Uma taça de vinho de 100 mililitros — ou uma taça um pouco maior, de 150 mililitros, quando a gente pensa em 14 gramas de etanol —, também. Então, nessa linha de pensamento, será que vodca, o uísque e a cachaça, assim como qualquer destilado, são mais fortes do que o chopinho na praia? Olhando para uma gota de cada bebida, se pudéssemos comparar assim, a resposta seria positiva. No entanto, essas opções destiladas têm, na dose de 30 mililitros — aquela que geralmente é servida pelo bartender ou o suficiente para encher o copinho do shot —, a mesmíssima dose padrão. Sem tirar nem por. Consegue entender a ilusão? Um copo de chope ou um copinho de pinga, na realidade da dose padrão, dão na mesma.

Portanto, tomar duas latas de cerveja não é nem nunca será beber “menos” do que esvaziar um copo de mistura com vodca em uma rodada de beer pong, o jogo que os jovens às vezes fazem nas festas, no qual perder significa virar uma dose goela abaixo. Ao contrário, em termos de álcool, você terá bebido em dobro ao esvaziar duas latas de cerveja. Muito adulto não tem a mínima noção disso — imagine então um jovem!

Canso de ouvir jovens, querendo até tranquilizar a família, falar algo como: “não bebo vodca porque é muito forte”. E os pais, nesse equívoco, sorriem aliviados. 

Vou esclarecer que não é o tipo de bebida consumida que pode trazer prejuízos, ainda mais em uma idade na qual o organismo está completando o amadurecimento de várias de suas funções. O que pode fazer mal é quantidade — seja de vinho, de cerveja ou de destilado. E, claro, conta também o jeito como a pessoa bebe, se engole muitas doses em um curto espaço de tempo ou se vai bebericando a mesma quantidade ao longo do dia inteiro. Merecem cuidado aqueles coquetéis doces ou batidas, que podem muitas vezes conter mais de uma dose de bebida no preparo.

Para terminar — e não se trata de machismo — preciso fazer um alerta às meninas. Por ter menos enzimas capazes de quebrar o álcool no fígado, o organismo feminino é, por natureza, mais sensível aos efeitos da bebida. Sem contar que o corpo da mulher contém menos água, isso também retarda a metabolização do álcool. Portanto, o impacto para a saúde costuma ser maior nelas. 

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A roubada de se automedicar com sprays para desentupir o nariz http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/10/09/a-roubada-de-se-automedicar-com-vasoconstritores-para-desentupir-o-nariz/ http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/10/09/a-roubada-de-se-automedicar-com-vasoconstritores-para-desentupir-o-nariz/#respond Wed, 09 Oct 2019 07:00:33 +0000 http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/?p=619

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Chega a primavera, com o tempo seco em algumas regiões do país e até mesmo com as grandes variações de temperatura ao longo de um mesmo dia observadas por aí, noto um grande número de adolescentes usando e abusando de sprays nasais com vasoconstritores. Entendo: a mucosa ressecada deixa o nariz cada vez mais irritado nesta época do ano. Tem a aula, tem a prova, tem a festa… E ficar com as narinas entupidas é mesmo perturbador.

O problema desses sprays é que a vasodilatação de fato provoca um alívio imediato, mas ele nunca dura muito. Aliás, a duração do efeito fica cada vez menor. Tudo indica que surge uma certa dependência: o período entre uma borrifada e outra tende a se tornar mais curto, especialmente ao anoitecer. E, quando se entra nessa desde a adolescência, o adulto não respira sem largar o maldito spray.

Sendo franco, não há registros, no caso de adolescentes, de problemas de pressão arterial mais graves como há em adultos usuários assíduos desse tipo de medicamento, causados justamente pelas substâncias da fórmula que comprimem os vasos. No entanto, penso que a dependência, por si só, já é algo para a gente ficar de olho. 

O ideal é orientar os jovens a fazer lavagens com soro fisiológico nas narinas — e com abundância, sem economizar esse soro. Mas, na ansiedade típica da idade — e até porque um  nariz tapado é desagradável demais—, eles acham que isso não vai funcionar. Preferem a rapidez de ação dos vasoconstritores — especialmente na hora de dormir, porque é quase impossível pegar no sono sem respirar direito. 

Só que eu garanto que a lavagem usando soro fisiológico pode ser bastante eficiente. A questão é que ela exige mais disciplina, algo que é difícil cobrar na adolescência. E, claro, paciência. Ora, não adianta borrifar líquido de manhã, uma vez só à tarde, depois apenas outra borrifadinha à noite. É preciso repetir o procedimento várias vezes — várias mesmo — durante o dia inteiro para sentir alguma melhora.  

Claro, o nariz ressecado, quando o soro não resolve, merece uma ida ao otorrinolaringologista. Especialmente se o quadro começa a complicar, porque o muco acumulado pelo nariz entupido vira o ambiente ideal para o crescimento de bactérias causadoras de doenças — isso é um fato. A situação também pode ser provocada por uma gripe ou por um resfriado. Mas  a rinite, como a do tal nariz irritado pelo clima seco, igualmente pode virar sinusite. É quando a infecção toma conta dos seios da face. 

Surgem então tosse, cansaço, dor de cabeça e febre. E é preciso tratar ligeiro. A pior roubada, porém, é se automedicar em uma hora dessas. Aliás, a pior roubada é se automedicar até mesmo antes de qualquer complicação, quando o nariz simplesmente entope. Vasoconstritores farão com que a pessoa precise cada vez mais deles para respirar de boa. Entre uma dose e outra, o muco continuará se acumulando. As infecções podem se tornar frequentes. Não, eu não recomendo. 

O que indico é, como já mencionei, a consulta no otorrino. Esse profissional poderá até mesmo checar se não existe um desvio de septo, estreitando a passagem do ar e piorando tudo de vez. Se houver, o certo — aproveito para avisar — é esperar o estirão da puberdade terminar para, daí sim, se submeter a qualquer cirurgia corretiva no nariz. Até lá, já sabe, muito soro nele.

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Se o adolescente exagera no energético, o coração se altera http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/10/02/quando-o-adolescente-exagera-no-energetico-o-coracao-se-altera/ http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/10/02/quando-o-adolescente-exagera-no-energetico-o-coracao-se-altera/#respond Wed, 02 Oct 2019 07:00:56 +0000 http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/?p=613

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A American Heart Association publicou um artigo interessante que me chamou a atenção: fala de uma associação entre o consumo de um volume relativamente grande de energéticos e alterações no eletrocardiograma e na pressão arterial de jovens. Achei que valeria a pena comentar seus achados aqui. Isso porque os adolescentes, quando vão à balada e resolvem consumir alguma substância ou bebida, nunca fazem isso moderadamente. E beber energéticos não é exceção.

No estudo, os participantes — todos saudáveis foram divididos em três grupos. O primeiro tomou um determinado energético. O segundo experimentou outra formulação de bebida energética. E o terceiro engoliu um placebo, ou seja, algo que parecia ser mais um tipo de energético, mas que era uma espécie de suco, sem nada de diferente para dar um gás ou deixar o cérebro mais alerta. 

Depois do consumo, todos foram submetidos a exames de pressão arterial e a um eletrocardiograma, exame cujo traçado mostra as cargas elétricas que passam pelo músculo cardíaco. É bom eu explicar que o coração funciona o tempo todo na base da eletricidade e são as diferenças de cargas elétricas que fazem com que ele se contraia ou relaxe. Entre cada batimento,  com  seus altos e baixos no gráfico do eletro, aparece o que nós médicos chamamos de intervalo QT. Pois bem: após o consumo de uma quantidade considerável de energético, o que se viu foi um prolongamento indesejável desse tal intervalo QT.

Na prática, o intervalo prolongado indica que a pessoa está bem mais sujeita a desenvolver uma arritmia cardíaca importante. Casos assim, conforme a área do músculo cardíaco e a intensidade, podem evoluir até se tornarem fatais. Ou seja, o consumo abusivo de energéticos poderia acionar uma bomba relógio para a saúde.

É interessante observar, comparando com dados de outros estudos, que a cafeína presente nesses produtos — talvez, na cabeça de muita gente, a primeira a ser acusada por um efeito assim  — na verdade, isoladamente, não tem o mesmo impacto sobre o intervalo QT do que o conjunto dos ingredientes de uma bebida energética, como notaram os autores. E aí eu me atrevo a dizer mais: se os jovens consumissem só energético, seria mais fácil. 

No entanto, é muito comum eles misturarem esse tipo de bebida com o álcool. Enquanto este teria um efeito depressor no sistema nervoso central, deixando o corpo mole e a cabeça entorpecida, o energético faria o contrário, dando aquela animada para o menino ou a menina terem condições de tomarem novas doses. Portanto, os goles de um costumam estimular mais goles do outro. E o fato é que não sabemos se esse tipo de combinação poderia piorar as coisas para o coração. Provavelmente, sim.

Mas vamos pensar só nos energéticos. Eles cada vez mais são encontrados em festas e baladinhas que focam o público de 10, 11 anos de idade. É quase comum, no meu consultório, eu ver garotos e garotas de não mais do que 12 anos que já perguntaram aos pais se poderiam tomar um energético no programa com os amigos.  Os pais muitas vezes permitem — não é álcool, pensam, daí que deve ser inócuo. Não é bem assim, como esse estudo aponta. Até porque tem mais: existem adolescentes que são mais sensíveis à cafeína e aos outros componentes desse tipo de bebida.

Aliás, uma coisa que podem alegar que é, no tal estudo, os participantes consumiram uma quantidade realmente considerável de energético. Você pode cogitar que bebericar um pouco só talvez não faça tão mal. Pode ser… A quantidade, no caso, foi de 900 mililitros. Isso equivaleria a quatro latinhas. No entanto, noutro dia recebi um paciente adolescente com queixa de palpitações. O que ele tinha consumido? Nove latas de energético no dia anterior. Não pense você que é um caso de livro dos recordes. Volto a bater na tecla que adolescente, em balada, dificilmente consome algo com moderação. Provavelmente, a meninada toma quatro latinhas, como foi a dosagem do estudo, com tremenda facilidade.

Um recado importante, aproveitando o tema, é que todo adolescente precisa passar por um check-up cardiológico. Todo adolescente, sem exceção. Mas dificilmente vejo isso acontecer no meu dia a dia. Seria bom saber a quantas anda o coração “de largada”, por assim dizer.  E até tomar ainda mais cuidado com os energéticos, se houver qualquer alteração nos exames.

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Talvez esteja faltando fantasia na masturbação dos jovens. E ela faz falta http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/09/25/talvez-esteja-faltando-fantasia-na-masturbacao-dos-jovens-e-ela-faz-falta/ http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/09/25/talvez-esteja-faltando-fantasia-na-masturbacao-dos-jovens-e-ela-faz-falta/#respond Wed, 25 Sep 2019 07:00:34 +0000 http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/?p=604

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A pergunta é quase tão antiga quanto a humanidade. Vá lá, talvez eu exagere, mas é que sempre a escuto no consultório: será que existe, digamos, uma quantidade ou um número limite de masturbações ao longo do dia ou da semana a partir do qual essa prática deixaria de ser saudável? Minha resposta é não. 

É fato que a enxurrada de hormônios na adolescência vai aumentar demais o desejo e a sensibilidade tanto do pênis quanto do clitóris, que embriologicamente são estruturas com a mesma origem. Ambos são cheios de terminações nervosas que, na adolescência ainda por cima, com a chegada dos hormônios sexuais, se excitarão por qualquer bobagem. 

Então, manipular os próprios órgãos genitais, além de ser irresistível nessa fase, sempre fará parte do aprendizado a respeito do próprio corpo, algo que o adolescente deve mesmo adquirir. E, ao longo de toda a sua vida, a masturbação continuará sendo parte de uma vida saudável e satisfatória. Não deixa de ser incrível que, até mesmo nos dias de hoje, seja uma prática tão carregada de culpa.

O que posso dizer aos pais ou responsáveis —aliás, o que devo falar principalmente aos  próprios jovens — no sentido de esclarecer essa questão de vez é que a medida do normal ou do que não é tão normal é, no meu modo de ver, dada pelo seguinte parâmetro: se o garoto ou a garota se masturba até mais de uma vez por dia, mas segue com os seus compromissos, está tudo bem. Agora, se ele ou ela passa a faltar à aula de inglês, à reunião de trabalho de escola ou ao que for porque está trancado ou trancada em um cômodo sem conseguir parar de fazer isso, aí sim, podemos dizer que há um exagero na masturbação. O equilíbrio é não prejudicar os afazeres e a rotina, no mais…E ponto final para a velha questão.

Mas, já que entrei nela, quero trazer algo novo, observado em alguns estudos com adolescentes. No mundo da tecnologia, moças e rapazes muitas vezes só se masturbam assistindo a vídeos de sexo nas telinhas de tablets e celulares. Ou mandam vídeos uns dos outros —aliás, uma mania que pode não ser nada segura para quem envia e para quem recebe, aproveitando aqui para opinar. 

Enfim, a realidade é que os adolescentes substituíram as velhas revistas com gente pelada, o pôster do galã de cima sem camisa no quarto, os desenhos eróticos de Carlos Zéfiro por isso. E o que algumas pesquisas alertam é para o seguinte: desse jeito não imaginam a cena, digamos, de uma transa. Ora, a mulher ou o homem seminu no velho retrato estático meio que obrigava quem iria se masturbar a imaginar toda a cena. Idem o desenho. Ao assistir a filmes, no entanto, esse tipo de fantasia pode ceder espaço para o mero estímulo visual. Ele é poderoso, sem dúvida, para a excitação sexual. Mas o sexo depende também de muita fantasia para ser gostoso, prazeroso — ela deve ser tão exercitada, como forma de autoconhecimento do que aumenta o desejo e segura a excitação, quanto a masturbação em si. Acho que vale eu deixar essa reflexão para todos aqui.

Por isso mesmo, quando um adolescente se abre e fala sobre o assunto comigo, recomendo que não assista a filmes todas as vezes, se ele me conta que é o que mais costuma fazer no momento de se masturbar. Que varie mais, que faça um filme em sua cabeça de vez em quando. O fundamental, como último recado, é ele tomar o cuidado garantir sua privacidade, escolhendo um lugar mais reservado. Desse modo, não corre o risco nem de levar um susto, nem de dar um susto em alguém da casa, por exemplo. 

Respeitar o espaço de cada um é necessário, ainda mais quando o assunto é vida sexual. Finalmente, os jovens só precisam ficar ligados para, na euforia, não colocarem muita força na prática, nem usar objetos capazes de machucá-los de um jeito feio, lembrando que os genitais, tanto femininos quanto masculinos, são delicados. Na dúvida, melhor procurar orientação de um profissional de saúde para começar a vida sexual de maneira mais segura, confortável e feliz.

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Ejaculação precoce é mais comum em adolescentes do que muitos imaginam http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/09/18/ejaculacao-precoce-e-mais-comum-em-adolescentes-do-que-muitos-imaginam/ http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/09/18/ejaculacao-precoce-e-mais-comum-em-adolescentes-do-que-muitos-imaginam/#respond Wed, 18 Sep 2019 07:12:20 +0000 http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/?p=597

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A vida sexual é um aprendizado e, portanto, faz todo o sentido que o corpo de um garoto, se adaptando à prática, às vezes perca o timing de uma relação e ele não consiga controlar minimamente o instante de ejacular. Isso pode durar alguns meses ou alguns anos. Se alguém me pergunta o que significaria “precoce” em uma situação dessas, eu diria que seria antes da hora em que o adolescente gostaria que acontecesse — definição que também valeria para homens adultos. Sei, sei, é algo muito relativo.

Então, vamos lá. Existe, para início de conversa, a ejaculação precoce primária, uma disfunção que, quando acontece, aparece sempre, desde as primeiríssimas relações, em geral por uma sensibilidade excessiva da glande. Em casos assim, o rapaz ejacula depois de menos de um minuto de duração do ato sexual — e olhe lá. Muitas vezes, o sêmen jorra antes mesmo de ele tirar a roupa. Aí é mesmo uma situação mais complicada, que pode impedir o sexo de realmente acontecer. No entanto, eu preciso dizer: é raríssima.

Na maior parte dos episódios, o que existe é a ejaculação precoce secundária e, aí, entramos no território da relatividade. O que define a queixa do jovem é, como já expliquei, ejacular antes do que ele gostaria. Não existe um tempo certo, abaixo do qual cravamos o diagnóstico. Sabemos que, em geral, a ejaculação que motiva a ida ao consultório acontece antes de três minutos de transa. Para ter o parâmetro, a maioria das pesquisas afirma que o tempo médio para um homem ejacular em relações consideradas satisfatórias para os parceiros é de 5 minutos — atenção, 5 minutos de movimentação contínua estimulando o pênis na penetração ou com as mãos. Aquele tempo, seja ele maior ou menor, de carícias e preliminares, a rigor não contaria aqui. Mas questiono: dá para sermos tão rigorosos, ainda mais no início da vida sexual?

Repito, na adolescência, pela falta de prática e do conhecimento das reações do próprio corpo em um momento de transa, muitos rapazes já gozam nas tais preliminares. Não há nada de errado nisso, ou seja, um ocorrido ou outro não se configura em ejaculação precoce. Para falarmos que o problema existe, é preciso que esse tipo de coisa se repita sempre ou, ao menos, com muita frequência pelo período de seis meses. Então, claro, vale uma consulta ao urologista.

Dou logo a boa notícia: tanto a ejaculação precoce primária quanto a secundária têm tratamento médico. Mas a segunda pode ter causas psicológicas — há muita ansiedade envolvida nesse começo da vida sexual — e até mesmo comportamentais. Sim, comportamentais.

Um período mais longo sem atividade sexual — masturbação incluída — pode apressar a ejaculação, por exemplo. A posição no instante do sexo também conta. Homens ejaculam mais depressa com a musculatura das pernas contraídas, algo que os adolescentes vão percebendo com a prática. Assim, manter as coxas bem relaxadas, ficando por baixo da outra pessoa entre outras possibilidades de postura, pode ajudar quem ainda está, digamos, acumulando horas de treino para controlar melhor sua ejaculação.

O uso da camisinha facilita bastante para quem teme ser muito apressadinho  — será que, aqui, eu preciso repetir que ela é necessária por questões de segurança acima de tudo e não só para retardar a ejaculação? Aproveito e deixo esse lembrete. Sobre a escolha da camisinha, aconselho os meninos a preferirem aquelas que não são tão finas, prometendo maior sensibilidade. Elas podem ser ótimas em outros períodos da vida, mas a intenção para controlar a ejaculação é fazer o inverso, ou seja, dificultar a sensibilidade. Então, as camisinhas mais espessas caem como luva.

Aproveito para dar a seguinte orientação: o álcool não compensa.  Aviso isso porque os meninos não demoram para notar que, depois de consumir bebida alcoólica, a ejaculação parece demorar mais para rolar. E aí aquele drinque parece a solução de todos os problemas, porque relaxa o rapaz para a paquera e a abordagem, sendo que, de quebra, parece fazer com que as coisas durem mais. Mas é um ledo engano, por diversos motivos. Não vou listá-los e ficarei só no sexo: além de, embriagados, os meninos cometerem o erro de dispensar o preservativo com maior frequência, correndo o risco de contrair doenças, uma dose de álcool a mais poderá ser suficiente para causar outra espécie de problema, isto é, dificultar a ereção. Aí, não haverá nem sequer ejaculação, certo?

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Agora o período da adolescência é 20% maior. E como lidar com isso? http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/09/11/agora-o-periodo-da-adolescencia-e-20-maior-e-como-lidar-com-isso/ http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/09/11/agora-o-periodo-da-adolescencia-e-20-maior-e-como-lidar-com-isso/#respond Wed, 11 Sep 2019 07:00:54 +0000 http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/?p=591

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É oficial: para a Organização Mundial de Saúde (OMS) a adolescência, agora, vai até os 24 anos em vez de terminar aos 20, como  era antes. O ajuste, que não é pequeno porque representa 20% a mais na duração dessa fase da vida, foi feito a partir da constatação de que os jovens demoram muito mais para alcançar sua independência no mundo de hoje. Eles levam mais tempo para entrar na faculdade, consomem um tempo extra na pós-gradução estudando por períodos bem maiores, não se casam tão cedo… Enfim, atrasam o dia de começarem a caminhar sozinhos com as próprias pernas.

Encarar que a adolescência anda se estendendo é uma  história  que começou na Austrália e que já vira consenso em todo o globo, ainda mais com a própria OMS assinando embaixo. No Reino Unido — para eu apontar apenas um dos números que embasa a mudança —, as mulheres se casam ou vão morar com sua parceria afetiva aos 30 anos, em média. Os homens de lá, aos 32. Segundo o levantamento britânico, a união conjugal costumava acontecer cerca de oito anos antes para os dois sexos nos anos 1970. É, isso mudou bastante e não é só entre eles. Algo parecido acontece em diversos países.

Outro dado, este de um trabalho que observou a média de idade com que as pessoas tinham filhos entre o ano 2000 e 2012, acusa que elas  adiam em cerca de três anos o momento de se tornarem pais ou mães — e isso, atenção, no mundo inteiro. Na prática, são indicadores de um fenômeno que todos nós já vínhamos notando: a garotada fica um tempão na casa dos pais, mais dependente deles do que nunca, embora saia com maior frequência e liberdade para as baladas e outros programas, namore mais, chegue tarde da noite, pareça super moderna e conectada com tudo. Na minha opinião, precisamos olhar para esse cenário com um pouco de cuidado para não se deixar levar pelas aparências, nem pelas datas oficiais da adolescência.

Se você pensar em como era o mundo até início do século passado, a adolescência mal existia como tal. Os imigrantes que contribuíram demais para o desenvolvimento do nosso país, por exemplo, tinham muitos filhos. Em parte porque a meninada mal completava 12, 13, 14 anos e começava a ajudar no trabalho, colaborando para o sustento da família ou para o crescimento do seu negócio no novo país. 

Até porque, naquela época, a Medicina mal estudava — e mal valorizava — a puberdade, a explosão dos hormônios, as questões de crescimento e todas as mudanças físicas. Essa etapa da vida ficava esmagada ou encoberta por uma necessidade social e econômica. Ninguém olhava para a saúde do adolescente, ou seja, era como se pulássemos da infância para a vida adulta sem escalas. Claro, isso estava longe de ser correto, pensando como médico.

Hoje, porém, partimos para o extremo aposto e — de novo, por necessidade social ou econômica — esticamos o período em que um jovem pode ser apontado como adolescente talvez ligeiramente demais. Penso que, ao fazer isso, a OMS quer garantir políticas públicas que facilitem ou, ao menos, não sobrecarreguem  ainda mais os pais com esse filho crescido dentro de casa.

Do ponto de vista fisiológico — tirando a história de o siso, que já foi conhecido como dente do juízo, irromper cada vez mais tarde sem muita explicação —,  o que sabemos de concreto é que o sistema nervoso central amadurece até os 25 anos, mais ou menos, em especial a área chamada córtex pré-frontal, aquela que faz com que nossas ações sejam mais planejadas e não tão impulsivas como as de um adolescente. Mas veja: provavelmente sempre foi assim. Nós, na Medicina, é que descobrimos isso só agora, com o advento de novas tecnologias que nos permitem observar o desenvolvimento do cérebro.

No entanto, na minha opinião, precisamos encontrar um ponto de equilíbrio dentro de casa e não sair usando a nova idade oficial do final da adolescência para justificar o comportamento infantilizado de jovens adultos. Cada vez mais, por uma série de circunstâncias, garotos e garotas ajudam menos dentro de casa, tomam menos responsabilidades para si, acomodam-se no papel de eternos dependentes, não assumem quando algo não dá tão certo em suas vidas — parece que a culpa, por notas baixas ou qualquer adversidade, é sempre dos outros ou de algo que lhes aconteceu. E sinto dizer: amadurecer é preciso. 

Não quero afirmar que, como no passado, a gente deva desrespeitar a realidade inegável de que esses jovens de 16, 17, 18 ou, vá lá,  20 e pouquíssimos anos  ainda não são adultos para assumir compromissos demais. E, sim, também é  verdade que o mercado de trabalho atual exige horas e horas a mais de estudo e isso precisa ser considerado. 

Mas, uma vez reconhecido tudo isso, aumentar o prazo da adolescência não pode, por outro lado, justificar que as novas gerações não se preparem para o mundo — por vezes duro e atribulado — dos adultos. Então, se querem saber minha opinião: não saiam alardeando a nova idade do final da adolescência para tratar o jovem dentro de sua casa quase como criança. Isso não faz sentido, nem o ajudará no futuro.

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É para vacinar: o HPV causa muito câncer de garganta em quem faz sexo oral http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/09/04/e-para-vacinar-o-hpv-causa-muito-cancer-de-garganta-em-quem-faz-sexo-oral/ http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/09/04/e-para-vacinar-o-hpv-causa-muito-cancer-de-garganta-em-quem-faz-sexo-oral/#respond Wed, 04 Sep 2019 07:00:58 +0000 http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/?p=583

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Os dados são dos Centers for Disease Control and Prevention, o CDC, do governo americano: por lá, 85% dos adultos praticam regularmente sexo oral e 33% dos jovens entre 15 e 17 anos de idade. Não existem dados semelhantes brasileiros. Mas vamos imaginar que, por aqui, seja mais ou menos a mesma coisa e nos lembrar que o risco de uma doença sexualmente transmissível também é elevado com essa prática. Nesse contexto, o HPV se torna uma das ameaças mais comuns à garganta dos jovens — e esta é mais uma excelente razão para que meninos e meninas sejam vacinados, sem ninguém titubear.

Um dos subtipos desse vírus, o de número 16, contra o qual o imunizante protege, está tremendamente associado ao câncer de orofaringe — que, dizem os colegas oncologistas, vem aparecendo cada vez mais cedo, em adultos jovens. Ou seja, estamos falando de tumores malignos de boca e de pescoço, embora muita gente acabe relacionando o HPV apenas às verrugas genitais, que podem surgir no pênis, na vagina e no ânus. Mas, claro, vale eu sublinhar que o papilomavírus humano, que seria o nome completo desse agente infeccioso, está sabidamente envolvido com o câncer de útero e de pênis também. Só que, friso, não podemos nos esquecer dos casos em que ele nos ataca pela boca, se ela entra em contato com as secreções dos genitais de uma pessoa portadora desse vírus. Aí, essas secreções estarão carregadas de suas cópias. 

Os sinais de uma infecção por HPV na garganta são diversos. O mais frequente é uma rouquidão que não passa, porque esse vírus gosta de se instalar nas cordas vocais. O indivíduo pode sentir uma leve dor para mastigar, um sinal que confunde — muitos pensam se tratar de um problema envolvendo aparelho nos dentes, por exemplo, principalmente quando o sintoma aparece em um adolescente.

Ou também acontece de surgir uma sensação de que o alimento fica grudando o tempo inteiro na boca — na verdade, ele pode aderir à superfície de lesões provocadas pelo HPV. Tem ainda quem experimente uma dormência na região oral e, para terminar, é preciso ficar atento a feridas que lembram aftas, mas que não ardem, nem desaparecem depois de mais de uma semana. 

Vamos ficar ligados: qualquer um desses sinais, quando persistem, indicam que o adolescente merece visitar um otorrinolaringologista, o especialista capaz de examinar minuciosamente as cordas ou pregas vocais, como nós médicos chamamos essas estruturas, atrás de pistas que levantem a suspeita dessa infecção.

Claro, existem outras doenças que podem igualmente ser transmitidas pelo sexo oral, como a gonorreia e a clamídia. Mas o que me chama a atenção é que, no caso do HPV, há uma vacina oferecida aos adolescentes até mesmo pelo nosso SUS. Um imunizante que dará a liberdade para ele praticar sexo oral com maior segurança até na fase adulta.

Então, qual o sentido de marcar bobeira? A vacina é a única forma eficaz, ao meu ver, de evitar que o vírus faça da garganta a sua moradia e, adiante, abra o caminho para um câncer. 

As outras medidas são muito pouco práticas, mas vamos lá: o certo, certo, certo (sempre!) seria alguém fazer sexo oral no garoto só quando ele estivesse usando camisinha. Ajuda, é para usar, mas… Mas, no caso do HPV, isso por si só não garante proteção completa. O vírus pode ficar à espreita até mesmo na base do pênis, onde o preservativo não alcança.

Já para alguém fazer sexo oral na garota, a solução, digamos, oficial seria cobrir a vagina com filme plástico, por exemplo. Além de atrapalhar completamente a sensibilidade dos genitais, esse é o tipo de recomendação que, na hora agá, acaba sendo dispensada, ainda mais pelos jovens. Ou seja, são saídas viáveis apenas em teoria. Já a vacina, não. Ela oferece uma ótima proteção e é fácil de encontrar no posto de saúde. Então, de longe, é uma decisão acertada dos adultos quando, sem tabus, mandam seus filhos tomá-la.

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Nada inocente, o cigarro eletrônico sem nicotina pode inflamar as artérias http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/08/28/nada-inocente-o-cigarro-eletronico-sem-nicotina-pode-inflamar-as-arterias/ http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/08/28/nada-inocente-o-cigarro-eletronico-sem-nicotina-pode-inflamar-as-arterias/#respond Wed, 28 Aug 2019 07:00:48 +0000 http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/?p=578

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Surge um outro estudo sobre os malefícios do cigarro eletrônico, só que este, por alguns motivos, chamou ainda mais a minha atenção. Ele saiu agora em agosto no jornal do American College of Radiology, assinado por cientistas da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. E, para começo de conversa, usou a versão sem nicotina do dispositivo. Ora, veja bem, se fosse para meter o pau na nicotina, não haveria tanta novidade na minha opinião: todos nós sabemos bem os prejuízos que ela pode causar à saúde. Mas tudo leva a crer o aerossol do cigarro eletrônico já faça um mal danado, eis a bomba.

Aí você pensa: faz mal aos pulmões, certo? Ora, também é sabido que, ao suspender partículas finíssimas e levá-las até o interior desse par de órgãos para que se acumulem ali, o aerossol presta um grande desserviço às células pulmonares. Ou seja, não teria muita novidade também. No entanto, os pesquisadores da Pensilvânia miraram em outro canto: eles foram examinar como os vasos sanguíneos de todo o corpo reagiriam após as tragadas no cigarro eletrônico e — surpresa! — o fato é que eles ficaram mal na foto. Em outras palavras, ficaram tremendamente inflamados, mesmo sem a presença da famigerada nicotina.

O estudo tomou o cuidado de recrutar voluntários absolutamente saudáveis e não fumantes de qualquer espécie de cigarro, que nem sequer tinham usado a versão eletrônica antes só por mera curiosidade. Esse é um detalhe que faz total diferença, porque assim os cientistas conseguem provar que a inflamação nas artérias, constatada por exames de ressonância magnética, provavelmente foi causada pelo tal do aerossol mesmo. 

Os autores sugerem que sejam feitos mais pesquisas para comprovar essa ação, mas só essa pulga que eles colocam atrás de nossas orelhas já é bastante preocupante, em especial quando a gente pensa na saúde dos jovens. Isso porque há uma verdadeira explosão no uso de cigarro eletrônico entre eles, de 2015 para cá. O fenômeno é observado no mundo inteiro. E cá entre nós: suponho que a situação seja até pior, porque os adolescentes costumam tragar a versão com nicotina.

No entanto, é possível que muitos experimentam o cigarro eletrônico sem essa substância, achando que, assim, isso seria quase uma brincadeira inócua. Não é.

Em escolas paulistas com as quais tenho contato, observa-se o hábito de fumar cigarros eletrônicos às escondidas na faixa precoce dos 11 anos de idade, o que está levando muitas instituições a criar campanhas mais severas de controle e iniciativas para alertar pais e alunos.

O cigarro eletrônico, que vende a ideia enganosa de ser mais saudável ou, vá lá, menos prejudicial do que o cigarro convencional, tem se tornado cada vez mais o primeiro contato dos adolescentes com o tabagismo. Primeiro, o menino experimenta o do amigo. Depois, quase como sinal de status na tribo, consegue ter o próprio cigarro eletrônico, que faz questão de levar para as festas nos finais de semana. E, quando vê, está fumando todos os dias.

O interessante é que o tal cigarro roda pela boca de dez, quinze ou mais amigos nas baladas. Daí que, por ironia, a mononucleose infecciosa, que já foi conhecida como a doença do beijo — transmitida pela saliva, ela causa febre, sensação de cabeça prestes a explodir e uma dor de garganta fortíssima —, está ganhando nestes novos tempos um novo apelido nos consultórios que atendem adolescentes. Ela agora é a doença do cigarro eletrônico, sendo o menor dos males perto do que esse mau hábito pode causar à moçada.

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O que fazer quando se descobre que o adolescente tem diabetes http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/08/21/quando-se-descobre-que-o-adolescente-tem-diabetes/ http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/08/21/quando-se-descobre-que-o-adolescente-tem-diabetes/#respond Wed, 21 Aug 2019 07:00:41 +0000 http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/?p=570

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Segundo dados do ano passado, no Brasil, mais de 31 mil crianças e adolescentes entre 0 e 14 anos de idade têm o diabetes tipo 1 — a forma na doença em que, por algum motivo não bem esclarecido, o próprio sistema imunológico do paciente destrói completamente as células beta do pâncreas, que seriam as produtoras do hormônio insulina, essencial para retirar o açúcar da circulação e fazê-lo entrar nas células do corpo. Estamos, portanto, no terceiro lugar do ranking mundial de diabetes tipo 1 na criançada, atrás apenas da Índia e dos Estados Unidos. 

Vale eu lembrar que 80% dos diagnósticos dessa forma de diabetes são realizados nessa faixa de idade. E o que chama a atenção: nos últimos tempos, focando o período de 2010 em diante, a descoberta da doença se tornou mais frequente na moçadinha entre os 10 e os 14 anos de idade.  Isso é diferente do que acontecia lá pelos anos 1990, quando a maior parte dos casos surgia antes dos 4 anos. Não me pergunte — ninguém tem essa resposta — por que razão o diabetes tipo 1 está surgindo mais tardiamente. 

Ao mesmo tempo, quando olhamos para o tipo 2 da doença, antes associado a um paciente bem mais velho, para nosso espanto o número de casos também vem aumentando bastante entre os adolescentes. E esse é aquele diabetes extremamente relacionado com o sobrepeso e com a obesidade, em especial quando os quilos extras estão lado a lado com o sedentarismo. O cenário é preocupante: em 2045, a projeção é de que 1 em cada 11 jovens brasileiros terá diabetes. E, não à toa, o fato é que esse virou assunto frequente quando se fala em saúde na adolescência. Um assunto, diga-se, bem importante. Mas muito se fala de exercício, de dieta, de insulina e remédios… Acho que existem outros aspectos que merecem igual destaque.

A descoberta dessa doença costuma ser um enorme abalo para a família. E vou dizer que ainda mais quando se trata do tipo 1, porque muitas vezes não há indivíduos com o problema na mesma família, nem qualquer pista de fatores de risco — é sempre uma tremenda surpresa. Há uma interrupção na rotina da casa. Além do compreensível medo do desconhecido, existe uma questão real, concreta: todos precisam se adaptar, ajustar hábitos, incluir novos horários e novas rotinas para controlar a glicemia do menino ou da menina, ainda mais se ele for praticamente um bebê.

Já cansei de ver pais nessa situação que mesclam um estado de indignação — por que foi acontecer justo com eles? — e culpa, aliás, muita culpa. Fazem as associações mais loucas. Acham que o diabetes tipo 1 apareceu porque trabalharam demais ou fizeram algo de errado, quando não é nada disso. Ninguém conhece bem as suas causas. 

Se é um caso de diabetes tipo 2 na adolescência, sem querer deixar ninguém se sentindo pior por isso, até precisamos analisar ainda com mais afinco os hábitos de toda a casa, que de alguma maneira criou um ambiente favorável à obesidade. No entanto, não é correndo atrás de culpados ou algozes que vamos garantir saúde e qualidade de vida para o jovem. Nem paz de espírito para os pais, os irmãos e quem estiver por perto. Por isso, quando falam desse assunto — e quando o paciente não é um adulto bem criado —, minha primeira sugestão é buscar ajuda. Não, não para o paciente apenas. Para a família inteira. No meu modo de ver, nos casos mais bem sucedidos de controle do diabetes na infância e na adolescência,  todos os familiares receberam apoio e orientação.

O segundo passo é envolver a escola, esclarecendo colegas e professores — explicando a doença, os seus tipos, o que fazer para ajudar a aluna ou o aluno com diabetes em uma situação de emergência, por aí afora. A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) realizou ações nesse sentido em diversos colégios entre 2014 e 2015, com mais de 10 mil estudantes adolescentes participantes. Mas isso seria apenas o começo. Torço para que retomem a iniciativa e, aliás, recomendo o site da SBD para quem busca uma série de dicas sobre o tratamento correto no dia a dia.

Todas essas informações valem ouro. Afinal, só posso dizer que, se seguidas direito deixando o diabetes bem controlado, o crescimento e o desenvolvimento físico dos jovens com essa condição de saúde  poderá ser absolutamente normal. O que mais me preocupa nessa são mesmo os aspectos comportamentais e psicológicos. Ora, adolescentes gostam, melhor, precisam pra valer sentir um vínculo forte com o grupo de amigos. E, caso ninguém cuide da cabeça do garoto com diabetes, ele poderá se sentir com uma identidade diferente da dos colegas. Logo, mais isolado. Vou dizer: adolescência e isolamento não combinam de jeito algum, pensando em saúde de um ponto de vista mais global. O prejuízo que isso poderá acarretar não se mede no sangue. E acho que, diante dos números de crescimento da doença nessa faixa etária, esse lado da história não pode ficar de fora.

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Maus hábitos alimentares favorecem pedras nos rins em plena adolescência http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/08/14/maus-habitos-alimentares-favorecem-pedras-nos-rins-em-plena-adolescencia/ http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/2019/08/14/maus-habitos-alimentares-favorecem-pedras-nos-rins-em-plena-adolescencia/#respond Wed, 14 Aug 2019 07:00:21 +0000 http://mauriciodesouzalima.blogosfera.uol.com.br/?p=561

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Uma pedra aparece no caminho —no caso, no caminho dos canais por onde a urina escoa dos rins — e a dor é infernal. Estudos indicam que é uma das mais violentas que o corpo humano é capaz de experimentar. Muitas vezes, ela é lombar, a parte baixa das coisas ardem. Mas o sofrimento pode refletir por todo o abdômen ou até aparecer só nele. Aí, o garoto ou a garota começa a urrar com as mãos na altura do um umbigo e, num primeiro momento, tudo pode se confundir com uma dor de barriga, uma virose, uma intoxicação por alguma bobagem que comeu na rua. Cálculo renal não é coisa de gente mais velha, ainda mais quando se tem uma tendência familiar a esse tipo de crise. E preciso dizer: alguns comportamentos frequentes na adolescência podem aumentar o risco de surgir uma dessas pedrinhas bem dolorosas.

Para começo de conversa, o adolescente parece ter preguiça de tomar água, hábito que deveria ter sido cultivado desde de infância, porque isso favoreceria a percepção da sede depois. Claro, existem aqueles que obedeciam papai e mamãe e se hidratavam direito quando eram pequenos. Mas que, agora, não têm mais idade de correr ao bebedouro porque o adulto mandou, certo? Certo! A questão é: sem tomar bastante água ao longo do dia, algo próximo de 1,5 litro, o volume de xixi consequentemente diminui. Logo, os sais que estão sendo filtrados pelos rins ficam concentrados e, daí, para se juntarem formando um cálculo, basta um pulinho.

Alguns trabalhos apontam que, além da genética, o consumo regular de alimentos não muito saudáveis dá a sua contribuição para o aparecimento dessas pedras. É o excesso de carnes, como o hambúrguer do fast-food, o exagero no sal de alguns alimentos ultraprocessados, os goles em refrigerantes e outros… Os rins também sofrem com o padrão alimentar dos dias de hoje. E os jovens tendem a comer mais esses itens do que adultos, fato.

É bem verdade que os médicos, depois de uma crise renal, devem pedir alguns exames para afastar outras hipóteses, como problemas nas glândulas paratireóides que podem surgir na adolescência também e uma eventual taxa elevada de ácido úrico no sangue. Bom examinar o cenário completo.

Quando a pedra fica, vamos dizer, emperrada nos rins, forçando a saída, o indivíduo pode apresentar, além da dor horripilante, febre e ânsia de vômito. Nem sempre haverá sangue visível na urina. Mas pode acontecer de ele sentir vontade, com mais frequência, de ir ao banheiro. Aliás, por isso, o problema não é confundido com dor de barriga, como já contei — ele também pode passar, nos primeiros instantes, por uma infecção urinária. O ultrassom é que poderá ser a prova dos nove, confirmando o cálculo renal. 

Os médicos devem, então, receitar remédios para aliviar o tormento, enquanto aguardam a pedrinha ser expelida. Aliás, uma dica importantíssima: nessas horas, contrariando o senso comum, não é bom tomar muita água na tentativa de apressar essa expulsão. Beber muito líquido, em uma situação dessas, costuma aumentar a pressão interna dos rins e piorar demais as coisas, danificando suas estruturas filtrantes. Beber líquido, sim, mas com moderação, conforme a recomendação médica.

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