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Viagens e passeios diferentes aumentam o risco de contrair raiva humana

Maurício de Souza Lima

15/01/2020 04h00

Crédito: iStock

É claro que o risco é maior para quem mora próximo do habitat natural de mamíferos selvagens ou bichos silvestres, assim como é maior para pessoas que, por força da profissão, vivem em contato com animais. Mas, em época de férias, quando muita gente viaja para lugares bem diferentes dentro ou fora do Brasil, surgem casos de raiva humana em quem, em princípio, não parecia muito vulnerável a pegar essa doença.

Também conhecida como hidrofobia, a raiva humana é uma infecção viral aguda e mortal, provocada pelo Lyssavirus, que fica de espreita na saliva de animais contaminados —a rigor, qualquer mamífero pode contrair hidrofobia — e então invade o organismo humano por meio de feridas, geralmente causadas por mordidas e arranhões desses animais, ou por machucados preexistentes. O vírus também pode penetrar por mucosas, se o animal infectado lamber a sua boca, por exemplo.

No Brasil, a maior parte dos casos ocorre no Norte e no Nordeste, destinos frequentes nas férias de verão. Mas existem pessoas que terminam infectadas fazendo turismo em diversas partes do mundo. Nas cidades, normalmente, o contágio se dá pelo contato com cães e gatos doentes. Em viagens ecológicas, pode acontecer pelo contato com macacos ou até mesmo com morcegos que habitam em cavernas — mesmo que eles não ataquem os visitantes,  podem arranhar a pele humana em um raspão durante o seu voo estabanado. Mas, repito, não adianta estigmatizar uma espécie ou outra,  porque a rigor qualquer mamífero pode ser portador do vírus.

E, embora não existam estudos checando números por faixa de idade, pela nossa observação os acidentes com animais infectados são relativamente frequentes nos adolescentes.  Fico imaginando o motivo e não encontro muita resposta. Talvez eles brinquem mais com animais que pareçam perdidos nas ruas ou nas praias, não sei…

O período de incubação do vírus pode levar incríveis dois ou três meses. Na verdade, varia bastante conforme o local por onde ele entrou, já que o Lyssavirus tem predileção pelos nervos e, aos poucos, se dirige ao seu destino final, que infelizmente é o cérebro. Portanto, quanto mais próximo da cabeça for o seu ponto de entrada, menos tempo irá durar esse tempo assintomático.

Quando ele é interrompido, no início podem surgir uma febre baixa, um mal-estar muito pouco específico, como se fosse uma infecção banal, causando dores na garganta, na cabeça e na barriga. Mas logo depois vem a fase neurológica: a febre aumenta, a pessoa se sente extremamente agitada, inquieta e ansiosa. Surgem espasmos musculares, inclusive nos músculos da laringe, quando estes entram em contato com água. Daí o nome da doença, hidrofobia. Na verdade, a musculatura se contrai até mesmo com a saliva e, por isso, como fica impossível engoli-la, ela sobra na boca e o doente acaba babando.

Na terceira e última fase, a febre continua nas alturas, mas aí já há muita desorientação, às vezes agressividade, retenção urinária e constipação, somando-se aos sintomas anteriores, além de uma tremenda alteração no ritmo cardíaco e, por fim, uma paralisia generalizada que evolui para o coma e, na sequência, para a morte.

Por ser tão grave, não dá para marcar bobeira. Se a pessoa foi machucada por um bicho qualquer, especialmente se ele for completamente estranho, a primeira medida será lavar o ferimento com muita água corrente e sabão sem a menor perda de tempo. Deve-se, ainda, encharcar a área com substâncias capazes de ajudar na assepsia, vendidas em qualquer farmácia para tratar machucados em geral. Na dúvida se foi infectado pelo vírus da raiva ou não, mesmo que seja profundo, o corte na pele precisa ser mantido aberto, isto é, sem ser suturado.

O ideal seria observar o animal que mordeu ou arranhou por uns dez dias, para ver se ele apresenta algum comportamento estranho e se, então, seria preciso iniciar pra valer o tratamento. Como em boa parte das vezes isso é impossível, o jeito é, por precaução, presumir que ele poderia estar infectado, correndo para tomar a vacina contra a raiva e, conforme o caso, tomar também algumas doses de imunoglobulina humana perto da região ferida. A imunoglobulina ajuda a inativar parte dos vírus, ganhando tempo para o próprio sistema de defesa produzir anticorpos  a fim de atacá-los antes de eles chegarem ao cérebro. Alguns casos receberão soro específico também.

Há várias classificações e os profissionais de saúde podem combinar esses recursos — vacina, soro, imunoglobulina —  de acordo com o local do ferimento e a espécie do animal autor do ataque. Quando os sintomas aparecem, alguns exames laboratoriais passam a ser úteis para confirmar se é mesmo um caso de raiva humana, já que a doença costuma se confundir com outras, como o tétano e a poliomielite  ao se manifestar. Mas o bom, óbvio, é agir para nem chegar a esse ponto.

Para receber orientação, o correto é procurar o centro especializado em zoonoses de sua cidade ou região. Em São Paulo, por exemplo, o Centro de Zoonoses não aplica a vacina, mas informa a vítima qual seria o local mais próximo de sua casa para ela ir em busca de tratamento. Para quem mora em São Paulo, vale anotar o telefone de lá: (11) 3397-8957.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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