PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Categorias

Dor de barriga uns quinze dias depois de voltar da praia: pode ser giárdia

Maurício de Souza Lima

08/01/2020 04h00

Crédito: iStock

Um trabalho realizado no hospital da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo registra a disseminação da giárdia nas praias brasileiras. O fato é que é cada vez maior a possibilidade de as pessoas se contaminarem com cistos desse protozoário — o Giardia lamblia —, quando passam os seus dias de verão no nosso litoral. Os cistos são a forma que a giárdia assume para resistir ao meio ambiente enquanto não infectar outro organismo.

E não é difícil imaginar como essa infecção acontece nas férias: o parasita pode estar naquela água de beber ou usada para fazer o suco ou, quem sabe, mais provavelmente, na pedra de gelo oferecida pelo rapaz da barraca de praia. Você ainda pode pegar giárdia durante o mergulho no mar. E aqui vale um aviso: o lugar pode até ser paradisíaco e a água, muito apropriada para banho. Mas, naquele dia, por azar, um cachorro passeou por ali e fez cocô na areia… Às vezes, é o que basta, se as fezes do animal estiverem contaminadas.

Claro, existem outras vias de transmissão. A pessoa pode pegar giárdia segurando objetos contaminados e, depois, levando a mão cheia de cistos à boca. Falta de higiene é sempre um fator de risco. Sexo anal sem proteção é outro caminho para alguém sair contaminado.

Uma vez dentro do corpo humano, a giárdia se instala na primeira porção do intestino, isto é, no intestino delgado. Muitas vezes, as crianças infectadas não apresentam nenhum sintoma, embora eliminem cistos com as fezes, capazes de contaminar mais pessoas. No entanto, nos adolescentes a infecção pode ser sintomática, começando por cólicas abdominais fortes e muitos gases, acompanhados de uma diarreia bem líquida, extremamente fétida, que deixa a impressão de as fezes estarem gordurosas. Em alguns casos, o quadro inclui náuseas, vômitos e até febre alta.

O interessante é que todos esses sintomas aparecem após duas ou mais semanas da contaminação. E daí muitas pessoas não associam tanta dor de barriga e mal-estar à temporada à beira-mar —afinal, elas pensam, já voltaram faz um tempão do litoral.

Por isso, diante um quadro de diarreia mais severa, o certo seria o médico sempre perguntar por onde aquele paciente andou nas férias. Se pisou em alguma praia, especialmente se isso já foi há algumas semanas, acende-se uma lâmpada amarela. Explico: a giardíase merece tratamento porque pode se tornar crônica, isto é, quando o organismo não espanta espontaneamente o protozoário, o que até costuma acontecer em boa parte dos casos. Mas, se a giárdia não vai embora, além de a ameaça de disseminação existir, ela vai causar um mal-estar constante, atrapalhar a absorção de nutrientes, provocar uma fadiga sem fim e, em última instância, levar a problemas de desenvolvimento, justamente por prejudicar o aproveitamento dos alimentos.

Se o médico desconfia que pode ser isso, uma giardíase, ele em geral pede um exame de fezes. Mas aí é que está: nem sempre esse exame detecta os cistos, o que não significa que a giárdia não esteja por ali. Talvez valha a pena repeti-lo. No entanto, considerar o histórico é tão ou mais fundamental. E a boa notícia é que existem remédios antiprotozoários. Lançar mão deles após as férias, quando se traz na bagagem uma dor de barriga dessas, pode ser uma medida importante.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

Blog do Maurício de Souza Lima