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Parece maluco, mas que tal começar as férias com um exame de colesterol?

Maurício de Souza Lima

11/12/2019 04h00

Crédito: iStock

Podem achar uma ideia maluca, mas sabe qual seria a minha sugestão para começar as férias? Fazer um belo check-up. E, como em todo bom check-up, não deixar de fora um exame de sangue para olhar a quantas andam as taxas de colesterol e de triglicérides no sangue. Por incrível que pareça, muitos jovens não fazem esse exame. 

Mais cedo, alguns pediatras —infelizmente, não todos — até o prescrevem, quando a criança tem obesidade ou há casos de colesterol nas alturas em casa e, se é assim, pode existir uma situação conhecida na Medicina por hipercolesterolemia familiar, doença hereditária em que o organismo produz uma quantidade tremendamente elevada de colesterol. Mesmo que não chegue a esse ponto, muitos pediatras ficam com um pé atrás quando observam que os pais têm problemas com as suas taxas de gordura e se todos estão acima do peso, por exemplo.

No entanto, há em seguida uma fase de total silêncio, quando o garoto ou a garota cresce um pouco. Em geral, ninguém fala de colesterol na consulta dos adolescentes e, se existir algo de errado com as suas taxas, esse paciente só descobrirá lá adiante, na vida adulta, perdendo tempo para se cuidar. Errado, como mostra um estudo recente de uma equipe da PUC do Paraná. Eu o li e registro aqui um alerta importante: muitos jovens estavam com o colesterol alto e, entre eles, uma boa parte exibia o peso normal. O trabalho em questão avaliou um número bastante expressivo de pessoas —38 mil estudantes entre 12 e 17 anos. É para a gente acender uma luz amarela mesmo.

Sabemos que quem vê cara e balança não enxerga um colesterol alto. Fato. Mas muitos colegas, diante do adolescente, se esquecem disso. A própria família não se dá conta de qualquer perigo envolvendo as gorduras no sangue. E aí só é pedido o exame, quando muito, naqueles casos em que há visivelmente sobrepeso e obesidade. 

Sim, sobrepeso e obesidade aumentam bastante o risco de as gorduras circulando no sangue ficarem mais elevadas do que o desejável. Mas isso não significa que meninos e meninas magros estejam livres da ameaça que, aos poucos, desde cedo, começa a formar placas em suas artérias. Não resolver quadros de taxas de lipídeos alteradas na adolescência é acionar uma bomba-relógio que, anos depois, poderá explodir no peito. Ou, talvez, na cabeça, provocando um acidente vascular cerebral, o AVC

Claro que ajustes no estilo de vida —com uma dieta orientada e mais exercício físico — ajudam. Às vezes, porém, é necessário entrar com uma medicação. Só um médico saberá a resposta. Pela minha experiência, é até fácil normalizar as taxas de triglicérides —que devem ficar abaixo de 150 miligramas por decilitro de sangue sempre — melhorando a qualidade da alimentação. Um colesterol alterado, por sua vez, é mais difícil de domar prestando atenção só para a mesa — nem por isso é impossível, só mais difícil.

O importante é não esquecer que o problema pode existir. Hoje, não há um valor único cravado do que seria um colesterol saudável. O LDL, aquele que é conhecido como o mau colesterol, deve permanecer abaixo de 50 mg/dl em quem apresenta um risco muito alto de desenvolver problemas cardiovasculares lá adiante, como um jovem com casos de infartos precoces na família ou um diabetes mais complicado. Já quem tem risco baixo pode manter suas taxas de LDL abaixo de 130 mg/dl. E, entre esses dois valores, há uma série de outros, formando uma escala conforme o risco.

Com o HDL, porém, é diferente: no caso do chamado bom colesterol, quanto mais alto, melhor. E todos nós, não importa a idade, devemos manter um HDL acima de 40 mg/dl.

Por isso, insisto: se quer um bom programa para começar as férias, vá com o adolescente ao médico, cheque a sua saúde e, entre outras coisas, não se esqueça que o colesterol também é assunto para a consulta de alguém nessa idade. Ele viverá muito ainda. E precisará ter um coração forte para isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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