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As micoses são transmitidas até por bichos domésticos e exigem paciência

Maurício de Souza Lima

04/12/2019 04h00

Crédito: iStock

Existem mais de 30 fungos que adoram se instalar no corpo humano, onde se alimentam da queratina, uma proteína fibrosa, mais rígida e impermeável que faz parte da pele e das unhas — quer dizer, compõe os cabelos também, mas, no caso, esses fungos vão atacar mesmo é o couro cabeludo, deixando áreas inteiras de falhas ou completamente carecas, sem um fio. São as chamadas placas de alopecia.

Já essas infecções, popularmente conhecidas por micoses, são dermatofitoses e aviso: dão um trabalho danado para serem tratadas, exigindo uma disciplina extraordinária, a qual sinto dizer que a gente não costuma ver nos adolescentes. É preciso uma boa conversa para convencê-los a fazer a coisa certa, dia após dia. 

Com o calor e, consequentemente, com a umidade do suor, esses problemas aparecem de vez. Os fungos, que adoram um verão, podem ser transmitidos de uma pessoa com dermatofitose para outra, pelo compartilhamento de roupas e até pelo ambiente da praia ou da piscina — é o caso da frieira nos dedos ou pé-de-atleta. 

Mas de uma coisa pouca gente sabe: essas micoses comuns nas estações mais quentes também podem ser transmitidas por gatos, cachorros, aves, até por peixes de aquários. Por isso, se alguém na sua casa apresenta uma delas, bom ficar de olho nos animais domésticos, que talvez apresentem a mesma condição e devam ser tratados. Bom eu ressaltar que isso nada tem a ver com a famosa sarna a qual, apesar da aparência impressionante, não passa do bicho doente para o homem.

Os sintomas das dermatofitoses podem variar ligeiramente, mas em geral todas elas provocam descamações e muita, muita mesmo, coceira. Existem casos mais raros em que o paciente não apresenta o prurido e, sim, minúsculas vesículas no local afetado. No caso das unhas com fungos, elas assumem um tom opaco, branco amarelado, e começam a esfarelar. Na verdade, as micoses podem aparecer no corpo inteiro, inclusive no couro cabeludo, como já disse.  

O cuidado é maior com aquele indivíduo que já apresenta outra doença, como o diabetes — no caso, qualquer descuido pode transformar as lesões da dermatofitose em uma enorme porta de entrada para infecções bacterianas mais graves. Todo cuidado é pouco.

O tratamento pode ser tópico, isto é, o médico pode prescrever um spray ou uma pomada para ser passada na área atacada pelos fungos. Em alguns casos, o remédio precisa ser engolido também. Mas nada faz a dermatofitose desaparecer da noite para o noite. Existem casos em que o tratamento gira em torno de 15 ou até mesmo de 30 dias. E existem micoses que não somem com menos de seis meses, às vezes até depois de um ano inteiro de tratamento. E esse tempo longo precisa ficar bem claro na conversa entre o médico e o paciente. 

Uma das principais causas do ressurgimento das dermatofitoses ou recaídas, muitas vezes em versões aparentemente mais graves, é o tratamento interrompido antes da hora, porque o jovem acha que já melhorou bastante ou porque se cansa de usar o remédio prescrito. Errado.

Também existem casos em que, na realidade, o problema não retornou, como dá a impressão — a pessoa é que voltou a ter contato com o que causou a primeira infecção,  como naquele exemplo do animal infectado em casa. Aí, apesar de parecer uma recaída, pode se tratar de uma micose novinha em folha.

Enquanto a lesão durar, o melhor é sair com ela bem protegida sempre, para que não vire a porta de entrada de germes. Feito isso, por si só a dermatofitose não causa um mal mais sério. Mas, sem dúvida, há um desconforto com o aspecto estético e a coceira pode atrapalhar a qualidade de vida. Sem contar que se transmite para outra pessoa com a maior facilidade. Motivo de sobra para alguém se tratar direito, suportando a demora para os resultados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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