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Blog do Maurício de Souza Lima

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A preparação para enfrentar o período dos vestibulares

Maurício de Souza Lima

13/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Chega esta época e começam a chover perguntas, além de pacientes  no consultório, querendo descobrir o que fazer para diminuir o  nervosismo e aumentar a disposição nesse período cheio de provas de vestibular. Existem até mesmo adolescentes ou pais de adolescentes questionando se seria o caso de tomar algum remédio para melhorar a atenção ou induzir o sono atrapalhado pela ansiedade. Calma, gente, o vestibular por si não pode ser motivo para sair tomando qualquer medicamento que, em tese, só deveria ser usado no tratamento de condições de saúde muito específicas e não para apagar o incêndio de quem deseja entrar na faculdade.

Por falar em apagar incêndio, minha primeira recomendação seria treinar. Não estou falando em estudar no caso, mas em fazer um simulado nas mesmas condições, se possível, da prova pra valer. Claro, o ideal seria ter feito isso ao longo do ano inteiro, mas se ainda dá tempo… Explico: o organismo precisa se acostumar a ficar com o corpo parado, sentado em uma cadeira por vezes desconfortável durante longas quatro, cinco horas, sem o cérebro perder o foco nem ser dominado por qualquer mal-estar. É treino, garanto. Costumo comparar o vestibular com o objetivo de correr uma maratona — não dá para imaginar ficar nos primeiros lugares indo direto para uma corrida de 42k, sem ter feito, antes, provas mais curtas como preparação.

Acho que nem preciso ressaltar o quanto é importante dormir bem, não apenas na véspera do vestibular, mas ao longo de todo esse período. E, no caso, mais do que tomar qualquer remédio, acho válido pensar em recursos naturais, como fazer um pouco mais de atividade física, aprender a meditar — a meditação tem funcionado bastante com as novas gerações de adolescentes, ainda bem —, ioga, até mesmo massagens, se for possível investir nisso. Se nada disso funcionar, para regular um sono que está demorando para aparecer em função das expectativas em alta, aí sim o médico poderá cogitar outras saídas, como as medicamentosas, na minha opinião.

Em relação à alimentação, até uns dois dias antes da prova já é bom começar a preferir pratos leves e de fácil digestão, menos gordurosos. Aliás, brinco que restaurante japonês é ótimo, mas que não vale a pena arriscar um peixe cru às vésperas dos vestibulares. Claro, não podemos colocar a responsabilidade de uma dor de barriga só nos sushis e sashimis. A recomendação correta seria evitar comer fora de casa, isso sim. É o pior momento para ter uma intoxicação alimentar. Em casa, sempre há mais controle, ainda mais em dias de calor.

Na data da prova, o jejum cai mal. Mas comer demais também. Em vez de ingerir carne, cuja digestão é lenta, melhor optar por um carboidrato, para que o estômago não fique pesando entre uma questão e outra. Um macarrão feito na hora é sempre ótima pedida, ao meu ver.

Sobre lanches, leva o famoso "chocolate para dar energia"— conselho que a gente mais escuta por aí — quem gosta de chocolate e ponto. Fazemos do vestibular uma bola de neve que só piora tudo. Ora, se o garoto ou a garota gosta de doce, que leve doce. Se prefere lanchar qualquer outra coisa, ótimo também. E, sim, conheço aqueles que se sentem forçados a comer no meio da prova porque disseram que é o certo, quando nunca tiveram o hábito de lanchar. Não é hora de ficar corrigindo hábitos, penso. Se não há o costume de fazer refeições intermediárias, pra que mudar isso no dia "D"?!

A hidratação também é muito importante — se cai um pouco, o cérebro já não raciocina do mesmo jeito. E tem o calor, somado a péssimas condições de ventilação em algumas salas onde são realizadas as provas. Mas também não é — de novo! — para exagerar porque ouviu dizer que era para beber muito líquido. Quem leva o conselho ao pé da letra pode ter de interromper a prova duas, três vezes para fazer xixi. Beber só ao sentir sede, combinado?

Uma última dica é ir conhecer o local da prova com antecedência e descobrir os caminhos para chegar lá, sentindo o trânsito. O que isso tem a ver com saúde? Se acontecer qualquer imprevisto, porque a região tem muito congestionamento, ruas de acesso mais estreitas ou o caminho era o mais longo do que o esperado, o que for, os hormônios do estresse, devido ao medo do atraso, chegarão às alturas. Eles prejudicam demais a capacidade cognitiva. E não caem de uma hora para outra, fique sabendo. Levam horas na circulação, podendo atrapalhar o desempenho, mesmo que no final o vestibulando chegue a tempo. Risco desnecessário.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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