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O sarampo pode fazer o adolescente ficar com a imunidade frágil de um bebê

Maurício de Souza Lima

06/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Eu já falei, aqui, sobre a importância de os adolescentes tomarem a vacina contra o sarampo. Especialmente quando os pais nem sabem onde está a carteirinha de vacinação. Sem a certeza de o jovem ter recebido o imunizante, melhor não arriscar. Na pior das hipóteses, se já tiver tomado, mal não irá fazer. 

A doença causada por um vírus, mais especificamente por um Morbilivirus, já é cruel por si só quando acontece e, pior, pode ser transmitida com facilidade quando a pessoa contaminada tosse ou espirra no mesmo ambiente. Mas o sarampo não fica por aí, como mostrou um estudo realizado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos: ele deixa nossas defesas quase que completamente desmemoriadas. Os autores chegam até a descrever o fenômeno como uma amnésia imunológica.

Por ironia, o estudo foi publicado agora, quando enfrentamos o desafio de conter o avanço dessa infecção, remando contra a perigosa onda antivacina que observamos por aí. O risco à saúde oferecido por esse descuido, que já era alto, agora se mostra altíssimo. Vou explicar por quê.

Há muito tempo nós, médicos, notamos que pessoas que tiveram sarampo parecem pegar outras doenças com maior facilidade. E o que é incrível: isso até mesmo alguns anos depois do sarampo. Seria impressão? Respondo: já vimos que não. Um dos trabalhos mais recentes para apontar o elo é da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. 

Os cientistas acompanharam meninos e meninas de 4 a 17 anos, portanto da infância à adolescência. E assim constataram que 77% daqueles que, nos primeiros anos de vida, contraíram o sarampo, tiveram várias outras infecções ao longo da juventude. Faço então nova pergunta: seria coincidência ou existiria algo no sarampo que deixaria a meninada de fato mais frágil? Não, não parece ser coincidência. E aí é que vem o trabalho dos americanos de Harvard.

Há seis anos, na Holanda, houve um surto de sarampo. O vírus se espalhou com facilidade, até porque muitas crianças de lá não tinham sido vacinadas. Os pesquisadores de Harvard investigaram justamente o que aconteceu com 77 delas com o passar do tempo. Eles pegaram amostras de sangue dessa garotada e as colocaram em contato com uma série de outros agentes infecciosos comuns. Se, em determinada amostra, a resposta era imediata, isso era interpretado como uma evidência de que aquele jovem já tinha entrado em contato com o causador daquela doença. 

É fácil compreender. Ora, toda vez que nosso organismo é surpreendido por um vírus ou por uma bactéria pela primeira vez, ele cria uma espécie de memória. Ou seja, no sangue, existem células de defesa encarregadas de reconhecer velhos inimigos, que já infectaram aquele corpo antes. Esse reconhecimento faz com que a nossa reação seja mais rápida — sabemos que armas precisamos usar contra aquele agente nocivo.

No entanto, veja que interessante: os jovens holandeses que participaram do trabalho e que tiveram sarampo tinham perdido a memória de 20% dos agentes infecciosos, em média. Nos piores casos, os adolescentes tinham apagado a memória de 73% de todos os vírus e bactérias que, um dia, seu organismo já tinha combatido. Isso é como voltar a ser um bebê, desprotegido e vulnerável a pegar qualquer coisa, porque seu sistema imune não está pronto, precisa ficar doente várias vezes, como aquele pequeno que começa a frequentar uma escolinha, para criar memórias. O sarampo provoca isso, isto é, faz a imunidade caminhar uns bons passos para trás.

Portanto, não dá para marcar bobeira: é para tomar a vacina, sim, não importa a idade. Mas, se quisermos focar só na adolescência, vale eu lembrar que ela, do ponto de vista fisiológico, termina tarde. Ou seja, estou dando um recado claro para a moçada que hoje está com uns 25 anos, lembrando que os casos de sarampo aumentam em jovens adultos com uma média de idade de 27.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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