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O aumento de jovens usando opioides é preocupante, inclusive aqui no Brasil

Maurício de Souza Lima

23/10/2019 04h00

Crédito: iStock

O consumo de substâncias opioides, como analgésicos potentes feito a morfina e a metadona — que já foram feitos a partir da mesma flor de papoula da qual se extraía a heroína e que hoje são sintéticos —, dispara pra valer no Brasil. Nada contra o uso bem indicado para tratar a dor indomável de algumas doenças, como em quadros avançados de um câncer. Aliás, essa classe de medicamentos é recomendada pela Organização Mundial da Saúde justamente para a dor oncológica.

No entanto, sem uma necessidade médica clara — que mesmo assim envolve dezenas de cuidados e ponderações entre os profissionais de saúde —, estamos falando apenas em risco. E em risco sério. Pesquisa da Fiocruz aponta que 4 milhões de brasileiros já fizeram uso ilegal de algum opiáceo, ou seja, consumiu a substância sem qualquer indicação do médico. Isso é mais que suficiente para tocar o alarme.

No organismo, os opioides fazem as vezes das endorfinas, neurotransmissores cerebrais associados à sensação de prazer. Por isso, seu primeiro efeito é uma euforia. Mas o problema é que, para viciar, é um só pulinho: estudos apontam que basta você usar opioides por três dias para já criar dependência. Claro, existem os mais fortes e os mais fracos nas prateleiras das farmácias. Mas são sempre opioides.

A sensação de que está tudo bem, obrigado, chega ligeiro quando se usa uma substância dessas. E dura horas a fio — daí o consumo de espalhar feito água. Os jovens, infelizmente, têm acesso fácil. Como a heroína da mesma família, os opioides encontrados por eles até na internet podem ser injetados na veia ou inalados, em vez de simplesmente engolidos. Vou dizer: opioides já são um risco por si só. Mas o que a moçada compra, por ser feito em fundo de quintal, nem temos controle do que realmente existe ali dentro! É encrenca na certa. Como mencionei, há notícias de que os adolescentes conseguem comprar essas drogas até mesmo por e-commerce…

Além da euforia e da felicidade perene, os usuários podem experimentar alívio de dores físicas, claro, e uma sensação de amortecimento, interpretada como um leve torpor — aí, é como se a vida ficasse literalmente mais leve. Como quando se usa drogas feito a cocaína e a anfetamina — igualmente perigosas, mas pertencentes a outro grupo —, podemos observar uma considerável dilatação nas pupilas após o consumo de opioides. Ela é uma pista. A luz incomoda bastante, inclusive. 

Os jovens também, não raro, apresentam amnésia, esquecendo-se de boa parte do que aconteceu enquanto durou o efeito dessas substâncias. Mas uma das ações mais importantes acontece nos vasos sanguíneos, que ficam relaxados — logo, a pressão cai. Se a reação é mais intensa, a pessoa até desmaia. E creio que nem preciso dizer que, conforme o caso, a pressão arterial despenca de um modo fatal.

No entanto, essa não é a única ameaça à vida: um artigo recente, que saiu no New England Journal of Medicina, aponta uma maior taxa de suicídios entre os viciados em opioides. A hipótese é que, ao sumirem os efeitos que levam à sensação de alegria, o tombo é enorme — entre uma dose e outra, o jovem pode ser vítima de uma tristeza funda e fazer bobagem. Estamos longe do cenário americano, onde essas substâncias já mataram centenas de milhares de pessoas dependentes químicas delas. Mas não podemos marcar bobeira, até porque aqui, tudo indica, o consumo pode começar mais cedo.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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