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Cerveja é bebida fraca? Jovens precisam rever seus padrões de álcool

Maurício de Souza Lima

16/10/2019 04h00

Crédito: iStock

Recentemente tive uma conversa com a Erica Siu, coordenadora do CISA (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool), uma organização não governamental que se destaca como uma das principais fontes no sobre o tema no país e gostaria de compartilhar com vocês uma impressão que nós dois temos em comum.

Alguns jovens acham que não há problema em tomar muita cerveja no final de semana. Pensam que a cerveja é leve e bem diferente de uma vodca, por exemplo. E seria ainda muito mais fraca do que a cachaça de uma caipirinha. Enfim, na cabeça deles, o bar se divide entre bebidas fortes e fracas, sem a menor noção de um conceito importante nessa história: o da dose padrão.

A dose padrão é a unidade de medida que corresponde à quantidade de etanol puro contido em qualquer bebida alcoólica. Varia um pouco conforme a instituição que fez o cálculo. Para a OMS (Organização Mundial de Saúde), uma dose padrão seria cerca de 12 gramas de álcool puro e essa tal dose, claro, difere de bebida para bebida. Outros chegam a falar em 14 gramas de álcool puro. Não há um consenso absoluto cravando a quantidade de etanol, mas é por aí sempre.

Uma lata de cerveja ou um chope de 330 mililitros contêm essa dosagem de álcool. Uma taça de vinho de 100 mililitros — ou uma taça um pouco maior, de 150 mililitros, quando a gente pensa em 14 gramas de etanol —, também. Então, nessa linha de pensamento, será que vodca, o uísque e a cachaça, assim como qualquer destilado, são mais fortes do que o chopinho na praia? Olhando para uma gota de cada bebida, se pudéssemos comparar assim, a resposta seria positiva. No entanto, essas opções destiladas têm, na dose de 30 mililitros — aquela que geralmente é servida pelo bartender ou o suficiente para encher o copinho do shot —, a mesmíssima dose padrão. Sem tirar nem por. Consegue entender a ilusão? Um copo de chope ou um copinho de pinga, na realidade da dose padrão, dão na mesma.

Portanto, tomar duas latas de cerveja não é nem nunca será beber "menos" do que esvaziar um copo de mistura com vodca em uma rodada de beer pong, o jogo que os jovens às vezes fazem nas festas, no qual perder significa virar uma dose goela abaixo. Ao contrário, em termos de álcool, você terá bebido em dobro ao esvaziar duas latas de cerveja. Muito adulto não tem a mínima noção disso — imagine então um jovem!

Canso de ouvir jovens, querendo até tranquilizar a família, falar algo como: "não bebo vodca porque é muito forte". E os pais, nesse equívoco, sorriem aliviados. 

Vou esclarecer que não é o tipo de bebida consumida que pode trazer prejuízos, ainda mais em uma idade na qual o organismo está completando o amadurecimento de várias de suas funções. O que pode fazer mal é quantidade — seja de vinho, de cerveja ou de destilado. E, claro, conta também o jeito como a pessoa bebe, se engole muitas doses em um curto espaço de tempo ou se vai bebericando a mesma quantidade ao longo do dia inteiro. Merecem cuidado aqueles coquetéis doces ou batidas, que podem muitas vezes conter mais de uma dose de bebida no preparo.

Para terminar — e não se trata de machismo — preciso fazer um alerta às meninas. Por ter menos enzimas capazes de quebrar o álcool no fígado, o organismo feminino é, por natureza, mais sensível aos efeitos da bebida. Sem contar que o corpo da mulher contém menos água, isso também retarda a metabolização do álcool. Portanto, o impacto para a saúde costuma ser maior nelas. 

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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