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Se o adolescente exagera no energético, o coração se altera

Maurício de Souza Lima

02/10/2019 04h00

Crédito: iStock

A American Heart Association publicou um artigo interessante que me chamou a atenção: fala de uma associação entre o consumo de um volume relativamente grande de energéticos e alterações no eletrocardiograma e na pressão arterial de jovens. Achei que valeria a pena comentar seus achados aqui. Isso porque os adolescentes, quando vão à balada e resolvem consumir alguma substância ou bebida, nunca fazem isso moderadamente. E beber energéticos não é exceção.

No estudo, os participantes — todos saudáveis foram divididos em três grupos. O primeiro tomou um determinado energético. O segundo experimentou outra formulação de bebida energética. E o terceiro engoliu um placebo, ou seja, algo que parecia ser mais um tipo de energético, mas que era uma espécie de suco, sem nada de diferente para dar um gás ou deixar o cérebro mais alerta. 

Depois do consumo, todos foram submetidos a exames de pressão arterial e a um eletrocardiograma, exame cujo traçado mostra as cargas elétricas que passam pelo músculo cardíaco. É bom eu explicar que o coração funciona o tempo todo na base da eletricidade e são as diferenças de cargas elétricas que fazem com que ele se contraia ou relaxe. Entre cada batimento,  com  seus altos e baixos no gráfico do eletro, aparece o que nós médicos chamamos de intervalo QT. Pois bem: após o consumo de uma quantidade considerável de energético, o que se viu foi um prolongamento indesejável desse tal intervalo QT.

Na prática, o intervalo prolongado indica que a pessoa está bem mais sujeita a desenvolver uma arritmia cardíaca importante. Casos assim, conforme a área do músculo cardíaco e a intensidade, podem evoluir até se tornarem fatais. Ou seja, o consumo abusivo de energéticos poderia acionar uma bomba relógio para a saúde.

É interessante observar, comparando com dados de outros estudos, que a cafeína presente nesses produtos — talvez, na cabeça de muita gente, a primeira a ser acusada por um efeito assim  — na verdade, isoladamente, não tem o mesmo impacto sobre o intervalo QT do que o conjunto dos ingredientes de uma bebida energética, como notaram os autores. E aí eu me atrevo a dizer mais: se os jovens consumissem só energético, seria mais fácil. 

No entanto, é muito comum eles misturarem esse tipo de bebida com o álcool. Enquanto este teria um efeito depressor no sistema nervoso central, deixando o corpo mole e a cabeça entorpecida, o energético faria o contrário, dando aquela animada para o menino ou a menina terem condições de tomarem novas doses. Portanto, os goles de um costumam estimular mais goles do outro. E o fato é que não sabemos se esse tipo de combinação poderia piorar as coisas para o coração. Provavelmente, sim.

Mas vamos pensar só nos energéticos. Eles cada vez mais são encontrados em festas e baladinhas que focam o público de 10, 11 anos de idade. É quase comum, no meu consultório, eu ver garotos e garotas de não mais do que 12 anos que já perguntaram aos pais se poderiam tomar um energético no programa com os amigos.  Os pais muitas vezes permitem — não é álcool, pensam, daí que deve ser inócuo. Não é bem assim, como esse estudo aponta. Até porque tem mais: existem adolescentes que são mais sensíveis à cafeína e aos outros componentes desse tipo de bebida.

Aliás, uma coisa que podem alegar que é, no tal estudo, os participantes consumiram uma quantidade realmente considerável de energético. Você pode cogitar que bebericar um pouco só talvez não faça tão mal. Pode ser… A quantidade, no caso, foi de 900 mililitros. Isso equivaleria a quatro latinhas. No entanto, noutro dia recebi um paciente adolescente com queixa de palpitações. O que ele tinha consumido? Nove latas de energético no dia anterior. Não pense você que é um caso de livro dos recordes. Volto a bater na tecla que adolescente, em balada, dificilmente consome algo com moderação. Provavelmente, a meninada toma quatro latinhas, como foi a dosagem do estudo, com tremenda facilidade.

Um recado importante, aproveitando o tema, é que todo adolescente precisa passar por um check-up cardiológico. Todo adolescente, sem exceção. Mas dificilmente vejo isso acontecer no meu dia a dia. Seria bom saber a quantas anda o coração "de largada", por assim dizer.  E até tomar ainda mais cuidado com os energéticos, se houver qualquer alteração nos exames.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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