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Talvez esteja faltando fantasia na masturbação dos jovens. E ela faz falta

Maurício de Souza Lima

25/09/2019 04h00

Crédito: iStock

A pergunta é quase tão antiga quanto a humanidade. Vá lá, talvez eu exagere, mas é que sempre a escuto no consultório: será que existe, digamos, uma quantidade ou um número limite de masturbações ao longo do dia ou da semana a partir do qual essa prática deixaria de ser saudável? Minha resposta é não. 

É fato que a enxurrada de hormônios na adolescência vai aumentar demais o desejo e a sensibilidade tanto do pênis quanto do clitóris, que embriologicamente são estruturas com a mesma origem. Ambos são cheios de terminações nervosas que, na adolescência ainda por cima, com a chegada dos hormônios sexuais, se excitarão por qualquer bobagem. 

Então, manipular os próprios órgãos genitais, além de ser irresistível nessa fase, sempre fará parte do aprendizado a respeito do próprio corpo, algo que o adolescente deve mesmo adquirir. E, ao longo de toda a sua vida, a masturbação continuará sendo parte de uma vida saudável e satisfatória. Não deixa de ser incrível que, até mesmo nos dias de hoje, seja uma prática tão carregada de culpa.

O que posso dizer aos pais ou responsáveis —aliás, o que devo falar principalmente aos  próprios jovens — no sentido de esclarecer essa questão de vez é que a medida do normal ou do que não é tão normal é, no meu modo de ver, dada pelo seguinte parâmetro: se o garoto ou a garota se masturba até mais de uma vez por dia, mas segue com os seus compromissos, está tudo bem. Agora, se ele ou ela passa a faltar à aula de inglês, à reunião de trabalho de escola ou ao que for porque está trancado ou trancada em um cômodo sem conseguir parar de fazer isso, aí sim, podemos dizer que há um exagero na masturbação. O equilíbrio é não prejudicar os afazeres e a rotina, no mais…E ponto final para a velha questão.

Mas, já que entrei nela, quero trazer algo novo, observado em alguns estudos com adolescentes. No mundo da tecnologia, moças e rapazes muitas vezes só se masturbam assistindo a vídeos de sexo nas telinhas de tablets e celulares. Ou mandam vídeos uns dos outros —aliás, uma mania que pode não ser nada segura para quem envia e para quem recebe, aproveitando aqui para opinar. 

Enfim, a realidade é que os adolescentes substituíram as velhas revistas com gente pelada, o pôster do galã de cima sem camisa no quarto, os desenhos eróticos de Carlos Zéfiro por isso. E o que algumas pesquisas alertam é para o seguinte: desse jeito não imaginam a cena, digamos, de uma transa. Ora, a mulher ou o homem seminu no velho retrato estático meio que obrigava quem iria se masturbar a imaginar toda a cena. Idem o desenho. Ao assistir a filmes, no entanto, esse tipo de fantasia pode ceder espaço para o mero estímulo visual. Ele é poderoso, sem dúvida, para a excitação sexual. Mas o sexo depende também de muita fantasia para ser gostoso, prazeroso — ela deve ser tão exercitada, como forma de autoconhecimento do que aumenta o desejo e segura a excitação, quanto a masturbação em si. Acho que vale eu deixar essa reflexão para todos aqui.

Por isso mesmo, quando um adolescente se abre e fala sobre o assunto comigo, recomendo que não assista a filmes todas as vezes, se ele me conta que é o que mais costuma fazer no momento de se masturbar. Que varie mais, que faça um filme em sua cabeça de vez em quando. O fundamental, como último recado, é ele tomar o cuidado garantir sua privacidade, escolhendo um lugar mais reservado. Desse modo, não corre o risco nem de levar um susto, nem de dar um susto em alguém da casa, por exemplo. 

Respeitar o espaço de cada um é necessário, ainda mais quando o assunto é vida sexual. Finalmente, os jovens só precisam ficar ligados para, na euforia, não colocarem muita força na prática, nem usar objetos capazes de machucá-los de um jeito feio, lembrando que os genitais, tanto femininos quanto masculinos, são delicados. Na dúvida, melhor procurar orientação de um profissional de saúde para começar a vida sexual de maneira mais segura, confortável e feliz.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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