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Blog do Maurício de Souza Lima

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Mudança no padrão de renda familiar afeta a saúde emocional dos jovens

Maurício de Souza Lima

07/08/2019 04h00

Crédito: iStock

Já imagino que, ao ler o título deste texto, você se pergunte: até aí, qual a novidade? Nenhuma mesmo, talvez. Mas achei curioso um estudo que saiu recentemente no Journal of Adolescent Health, uma das mais prestigiadas publicações da área da Medicina do adolescente. Os pesquisadores levantaram dados do comportamento de jovens de diversas regiões para observar como a queda na renda familiar afetaria a cabeça dos jovens. É eles parecem, até certo ponto, reagir da mesma maneira — com tristeza, pensamentos derrotistas, aperto no peito, desejo de isolamento.

O mais curioso é que o artigo é assinado por cientistas coreanos da Universidade de Seul, a quarta maior economia da Ásia. Mas vamos lá para o ponto que me chama bastante a atenção: não pensem vocês que o que mais perturba a moçada, de acordo com o levantamento, é a menor possibilidade de consumirem coisas ou algo assim por falta de dinheiro. Não é a parte do consumismo que mais incomoda. A maior fonte de sofrimento é a preocupação com os pais.

Em alguns casos, isso — novamente de acordo com o trabalho — provoca um afastamento maior da família do que o que já seria esperado nessa fase da vida. Especialmente naqueles casos em que não há ainda, digamos, um amadurecimento emocional. Segundo os adolescentes, a vontade de dialogar em casa diminuiu porque é difícil ouvir uma reclamação atrás de outra. Eles se sentem deprimidos e pessimistas. E as meninas, olhando para os dados do artigo, são mais sujeitas do que os meninos à introspecção. 

Os pesquisadores alertam ainda que muitos jovens, devido ao imediatismo para resolver as coisas, sentem um maior apelo para experimentarem álcool, drogas e substâncias psicoativas em geral, em uma idade mais precoce do que acontece com garotos e garotas que não percebem a angústia dos pais diante de uma crise econômica dentro de casa. É escapismo, sabemos. Um copo transbordando porque ainda não estava preparado para viver tão cheio.

Se tomamos tudo isso como verdadeiro, estamos diante de uma situação complicada. Afinal, longe de mim propor que pai e mãe escondam a realidade dos filhos. Isso nunca! Ou que não os ajude a amadurecer pedindo que colaborem à sua maneira, gastando menos inclusive. Mas no dia a dia noto também — e aí trazendo o tema para o contexto do meu consultório — que, diante da crise, muitos adultos ficam tão imersos em preocupações, vivendo profundamente a fase conturbada, que se esquecem de olhar nos olhos dos filhos para conversar sobre o que está acontecendo com calma, com uma dose de descontração, se for possível.

Na minha opinião, isso evita que a cabeça do jovem preencha lacunas de silêncio com fantasias pessimistas. Aliás, sei que é difícil até para adultos, mas o importante — ainda mais na juventude — é não se deixar levar pela desesperança.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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