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Uso de melatonina sem orientação bagunça de vez o sono dos adolescentes

Maurício de Souza Lima

08/05/2019 04h00

Crédito: iStock

Os pais perdem o sono junto e se descabelam quando notam que o filho está trocando a noite pelo dia — principalmente quando isso ocorre um dia após o outro. Afinal, é o tal do celular na cama, é aquela irresistível cochilada no meio da tarde tirando o sono mais tarde — chega a hora de dormir e o jovem continua de olhos abertos, mais ligado do que nunca, prejudicando o rendimento na escola e o seu humor diante de tudo.

A tentação de oferecer alguma coisa para induzir o sono e colocar o ciclo dormir-e-despertar nos eixos é sempre grande. Se os pais não oferecem algo, os próprios adolescentes vão atrás. E, nessa onda, o uso de melatonina está se tornando cada vez mais comum nessa faixa etária.

O hormônio, naturalmente produzido pela glândula pineal no cérebro, reconhecido por regular os ritmos biológicos, não é vendido livremente no país como nos Estados Unidos. Mas sempre alguém consegue trazê-lo na bagagem de volta das férias ou até mesmo pode encontrá-lo em farmácias de manipulação. Só que aí é que está: trata-se de um hormônio. Então, para começo de conversa, só deveria ser prescrito em casos comprovados de deficiência e sempre ser tomado com orientação. O preço do uso indiscriminado é bagunçar de vez os ponteiros do relógio biológico.

Ao engolir o remédio na hora errada, justamente por falta de entendimento de como funciona, o jovem muitas vezes até adormece. Os pais, então, voltam para a cama tranquilos. Mas… Bem, o efeito indesejável pode ser, para começo de conversa, uma canseira infernal no dia seguinte. Fatalmente a soneca da tarde será mais longa e profunda. E a dificuldade para dormir se tornará ainda maior à noite. Dá-lhe, então, mais e mais melatonina.

Sem contar que, dormindo mais profundamente do que de costume por causa da melatonina ou de qualquer outro medicamento que pareça natural e prometa resolver a insônia, o adolescente terá dificuldade também para abrir os olhos e prestar atenção nas aulas na manhã seguinte.

A solução para a insônia dos jovens não pode ser algo tomado por conta própria, sem o olhar do médico. Geralmente esse tipo de saída fácil faz o adolescente dormir quatro horas durante a madrugada e mais outras quatro horas depois do almoço, é óbvio. Vários comportamentos precisam ser corrigidos para que as oito horas de sono aconteçam no horário ideal e sem interrupções — e, aí sim, temos a solução do problema. Aliás, o próprio médico deverá pedir uma polissonografia — o exame que avalia a qualidade do sono —, antes de sair indicando a alternativa, muitas vezes enganosa, da melatonina.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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