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Blog do Maurício de Souza Lima

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Adolescente sempre acha que dá tempo para tudo; isso pode virar problema

Maurício de Souza Lima

17/04/2019 04h00

Crédito: iStock

Aviso: faz parte da adolescência a dificuldade para administrar o tempo. Não tem a ver apenas com o excesso de tarefas, embora isso ajude. Afinal, temos a escola, o inglês, o esporte, a festa, o momento de ajudar os pais… Nem somente essa dificuldade está relacionada com a vontade de passar todas as distrações do mundo (e são tantas) à frente das horas de estudo, embora isso exista também. 

Além dos fatores comportamentais e do ambiente — que nos dias modernos nunca colabora —, há uma questão do amadurecimento do sistema nervoso central. 

Fique sabendo que o jovem nem sempre enrola quando acha que vai dar tempo de sair com os amigos e, ainda assim, se preparar para a prova. Ou ficar pendurado no celular e ir para a aula sem atraso. Ele realmente acredita nisso. Sem contar que postergar é próprio dessa idade.

Mas, quase invariavelmente, chega um momento em que o gargalo aperta. Sente os efeitos da sobrecarga e manifesta sinais claros de estresse. As escolas muita vezes não colaboram: a grade curricular já anda superlotada com aulas e aulas preparatórias para exames e elas ainda inventam novas obrigações para mostrar que são boas. Não adianta reclamar. O sistema de ensino está assim.

A saída viável é ajudar o adolescente. O primeiro passo é sentar-se ao seu lado para reavaliar quais tarefas são realmente importantes ao longo da semana. Por exemplo: se ele tem uma sessão de terapia em determinado dia, precisa ter noção que esse compromisso é inegociável. E que, se algo atrasar, ele terá de cortar aqueles 15 minutos no celular, em vez de chegar atrasado à consulta. Não pense que um adolescente consegue enxergar isso sozinho, embora pareça óbvio aos olhos dos adultos. Pela questão da maturidade do sistema nervoso, nem sempre é o que acontece. Aqueles 15 minutos no celular parecem apenas 5 na sua cabeça. 

Também não é fácil calcular o tempo de deslocamento de casa para o colégio ou qualquer outro canto, independentemente do trânsito. Repito: administrar o tempo não é a praia do cérebro adolescente.

Na agenda que sugiro, criada a quatro mãos, o fundamental — como apontam diversos trabalhos — é reservar um tempo diário para o jovem não fazer nada. Simplesmente nada. 

As novas gerações precisam aprender algo que até nós mesmos, os mais velhos, desaprendemos:  passar alguns minutos diariamente desocupados. Olhando o teto, se for o caso. Ouvindo uma música, quem sabe. Sei lá… Não vale ficar respondendo amigos nas redes sociais — isso é permanecer ativo.

Infelizmente, o tempo desocupado é encarado com culpa. Parece desperdiçado. Ninguém fica quieto, sem atividade, por um instante sequer — a não ser aqueles que praticam meditação. Mas não é disso que estou falando. Não estou recomendando meditação para todos os adolescentes.

Entre lições, aulas, passeios, lazer (sim, porque o lazer pode ser consumido com uma atividade), a agenda do jovem necessita de espaços em branco. São esses espaços vazios que, aos poucos, podem ajudá-lo a perceber a passagem das horas.

Depois, esse modelo pode ser aplicado na semana. Por exemplo, um festival como o recente Lollapalooza pode pedir dias sem fazer nada depois. Alternância de ocupações e sossego. Mesmo que as ocupações pareçam agradáveis para o menino ou a menina.  A rotina de festas, sem limites, acaba sendo extenuante para o corpo e a mente de um adolescente. Claro que ele não se dá conta.

A observação do tempo, graças a  esses vazios entre os compromissos, é que ajuda mais do que qualquer outra coisa, o jovem a se organizar. E, só assim, ele ficará menos estressado em um mundo onde a agitação e as horas preenchidas invadem até mesmo as noites de sono.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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