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Linfoma: um câncer comum na adolescência e menos comentado do que deveria

Maurício de Souza Lima

27/03/2019 04h00

Crédito: iStock

Infelizmente, o câncer também aparece na adolescência. Alguns tumores são mais observados em meninos e meninas entre 12 e 19 anos de idade, de acordo com dados internacionais. É o caso, entre exemplos,  daqueles que aparecem no testículo, de outro que acomete os ossos bem na estirão do crescimento — o osteossarcoma —, do câncer de tireoide, das leucemias e dos linfomas. Aliás, hoje quero falar um pouco dos linfomas em especial, para chamar a sua atenção e aumentar a chance do seu diagnóstico precoce.

Os cânceres que mencionei não são exclusividade dos adolescentes, mas podem surgir ou se comportar de um jeito diferente neles do que em outras faixas de idade — na infância ou na vida adulta. Por isso, devo alertar que na adolescência um linfoma pode não dar sinal e acaba sendo flagrado, por sorte, em um check-up de rotina.

Então, fica logo claro o meu conselho número 1: o adolescente, como pessoas de qualquer idade, precisa passar por consultas periódicas. Infelizmente, o que notamos é um vácuo entre a infância, quando a criança é levada de tempos em tempos pelos pais ao pediatria só para ver se está tudo bem, e a fase adulta, quando a pessoa por ideia da própria cabeça passa a frequentar o consultório médico e repete a visita a cada ano, mais ou menos. Por que deveria ser diferente na adolescência? Essa lacuna nas consultas ao longo da vida não faz sentido algum, mas é uma realidade. E o olhar de um médico, no exame clínico ou nos resultados de exames laboratoriais que costumam ser pedidos sempre, poderia levantar a suspeita.

Quando dá sinal, o linfoma se apresenta como um caroço duro, na região do pescoço, da virilha ou das axilas, em geral. Só há um detalhe: esse caroço firme não costuma doer. Ao notar um nódulo assim, o certo é não deixá-lo passar batido e ir correndo ao médico. Mas volto à tecla que vivo batendo neste blog: precisamos educar nossos adolescentes para que conheçam seu próprio corpo, façam auto-exames e passem a dar a devida atenção a qualquer coisa diferente que apareça. Não precisa doer, eis a questão. Mas, se não dói, o jovem dificilmente dá bola. É uma cultura que precisamos mudar.

Quando há um linfoma, o menino ou a menina também perde peso depressa, aparentemente sem motivo. Pode apresentar febre e começar a suar muito à noite. A causa está nos linfócitos, integrantes do sistema imune, que passam a se reproduzir de maneira desordenada dentro dos gânglios.  

Há dois tipos de linfoma, na realidade — o que chamamos de Hodgkin e o Não Hodgkin. O primeiro é mais frequente na adolescência e as chances de cura são altíssimas, sempre acima dos 90%. Mas, para isso, facilita muito o problema ser tratado desde o início. 

Hoje, temos 10 mil novos casos por ano e, não sei dizer a razão,  isso é cerca de o dobro do que encontrávamos há duas décadas, especialmente se olharmos os pacientes adolescentes — sim, neles o número de casos cresceu bastante. Talvez esse aumento seja decorrência  de que hoje a informação é maior. Quem sabe… 

Ainda assim, acho que a população —  eu me refiro aos pais e aos próprios jovens que, entendo, não querem pensar em doença — continua alheia ao problema. O certo seria, além de ficar de olho na visita anual ao médico, sem perdê-la de jeito algum — por esse e por "n" outros bons motivos —,  reparar em nódulos para que, se for o caso, sejam feitos exames de ultrassom e uma biópsia, uma dupla que faz o tira-teima e é capaz de afastar qualquer dúvida quando desconfiamos de um linfoma.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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