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Blog do Maurício de Souza Lima

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Dor abdominal forte e vômito: sinais da síndrome rara causada pela maconha

Maurício de Souza Lima

06/02/2019 04h00

Crédito: iStock

Recentemente, tomei conhecimento do caso de um adolescente internado em um dos maiores hospitais do país. Ele urrava de dor no abdômen, que nenhum remédio parecia aliviar. Também vomitava qualquer coisa que colocasse na boca. E, surpreendente, nem os mais modernos remédios para controlar enjoos davam um fim em sua náusea. 

Meus colegas já estavam de cabelos em pé — e eu também, claro. Naquela altura, o garoto não tinha sido poupado de nenhum exame — passou por testes e mais testes, fizeram imagens e mais imagens do seu organismo. Nada de se encontrar o foco de toda aquela dor. 

Veja bem: quando um indivíduo entra no hospital com uma dor abdominal intensa daquele jeito, a gente logo desconfia de pedras nos rins, úlceras gástricas, apendicite… Não raro, alguns serviços de saúde abrem mão dos exames por um motivo ou por outro — inclusive pelos custos — e vai logo apelando para o bisturi. Se isso fosse feito ali, naquele caso, o corte cirúrgico seria realizado à toa. Mais uma vez, nada achariam.

Inconformado, perguntei se nada, realmente nada tinha dado positivo. E o único positivo que tínhamos era no teste de consumo de maconha. Recorri à literatura médica para confirmar a minha suspeita: hiperemese por canabinoides, doença rara provocada pelo consumo de maconha, relatada pela primeira vez na Austrália, em 2004 e que, nesses quinze anos, não soma nem sequer 90 publicações científicas ao redor do mundo, o que não é muita coisa

Mas esses poucos trabalhos vêm aumentando e novos casos surgem principalmente em lugares onde o uso da erva está mais liberado. Não por nada: talvez porque as pessoas consumam mais maconha nesses locais ou, ao menos, relatem sem tanto problema que são usuárias. Vai saber…

O fato é que a hiperemese é uma condição rara, mesmo entre os usuários. Um dos sintomas que entrega o problema é o instinto para tomar um banho quente — e aqui "quente" é pelando mesmo, quase fervendo, a ponto de existirem relatos de queimaduras na pele. É que o calor da água, parece, é a única coisa capaz de aliviar a dor que, dizem, beira o insuportável. 

Aliás, eu e meus colegas fomos checar com o jovem internado se algo diminuía aquele sofrimento intolerável e ele confirmou: banho, com água escaldante. Se ele pudesse, nos disse, não sairia do chuveiro.

O primeiro sintoma da hiperemese, no entanto, antes de dar as caras pra valer,  é uma forte compulsão por comer. Até aí, assemelha-se à famosa larica, só que bem intensa. Só que, em plena digestão, a dor surpreende. Pega de jeito. Permanece nas alturas por, no mínimo, dois ou três dias, sem um segundo de trégua — daí muitos indivíduos correrem ao pronto-socorro e os médicos confundirem a situação de emergência com aqueles problemas que já citei, como uma pedra nos rins… Penso até mesmo que devem existir casos de hiperemese por canabinoide que são confundidos por aí com esses outros males, de modo que ficam sem registro.

Uma outra curiosidade é o enjoo, que não cede usando as medicações de praxe para controlá-los, como já mencionei. E isso também confunde porque, na Medicina, quando a maconha é usada em tratamentos, ela é reconhecida por afastar a náusea ao invés de provocá-la.

Alguns trabalhos afirmam que a pessoa com hiperemese por canabinoide apresenta sinais de ansiedade forte — mas até aí, convenhamos, precisamos ter o bom senso de lembrar que se trata de um indivíduo sentindo muita dor. Ou seja, que pode estar nervoso ou ansioso por causa dela. 

Outros estudos apontam que a hiperemese só aparece com o consumo regular, de no mínimo um cigarro por semana. Mas bastaria um cigarro.  Se bem que pode aparecer uma vez e não aparecer ao se fumar o baseado tempos depois. Muitas vezes, quando o jovem insiste, porque não associa uma coisa a outra, com o tempo vai perdendo peso, porque fica com medo de comer. E, no caso, sem saber que a solução para a sua dor é simplesmente nunca mais fumar maconha.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.