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Pacientes que sofreram anorexia têm maior risco de fraturas

Maurício de Souza Lima

19/12/2018 04h00

Um estudo australiano mostra um dado muito interessante e que não vem ganhando a devida atenção:  o risco de fraturas em jovens que tiveram anorexia aumentou 8%. 

Na realidade, 20% das moças acompanhadas por um período de cinco a dez anos pelos pesquisadores quebraram ossos várias vezes durante esse tempo. Todas as 41 voluntárias do trabalho tinham aparentemente superado o problema da anorexia, recuperando o equilíbrio mental,  o peso e a massa magra. 

A anorexia é um transtorno de imagem corporal, capaz de levar à morte. Existem rapazes com o problema, mas as garotas são de longe a maior parte das vítimas. 

Em geral, a menina deixa de fazer as refeições com a família. No entanto, por mais que os pais desgostem da ausência, podem achar que se trata mais de uma questão de comportamento típico da idade do que de um transtorno mental grave. Afinal, que adolescente não gosta de levar um prato de comida para o quarto e se trancar por lá?

Quando aceita sentar-se à mesa, é uma guerra. Ela come pouco, quase nada mesmo, mas nem adianta falar: alega que está levando uma alimentação mais saudável que o restante da casa ou inventa outra desculpa qualquer.

Se os pais decidem levá-la ao médico porque notam a perda acentuada de peso, podem cair em outra pegadinha — e esta nem nós, médicos, conseguimos entender direito. Eu explico: em uma primeira fase da anorexia, muitas vezes não flagramos nada de errado, concretamente, com o organismo. Por um desses mistérios da fisiologia humana, os exames de sangue costumam exibir resultados normais quando a anorexia dá os seus primeiros passos. E, pior, muitas vezes a adolescente usa esse resultado para mostrar para todos que tentam ajudá-la quando a situação vai saindo completamente do controle.

Na realidade, os primeiríssimos sintomas da anorexia são alterações de humor — e aí, de novo, qual adolescente não vive em uma gangorra emocional, confundido a família diante do quadro anoréxico? — e, atenção, alterações do ritmo cardíaco. A arritmia é um sinal para a gente ficar de olho.

Com o tratamento adequado —  que é longo, multidisciplinar e difícil —, a menina pode recuperar a saúde. Leia-se: recuperar um índice de massa corporal adequado e a musculatura que foi usada como fonte de energia pelo organismo que não tinha um pingo de gordura de reserva. Mas voltando ao tema principal deste texto,  o esqueleto nunca mais será o mesmo. 

Os australianos notaram, fazendo exames de densitometria no corpo inteiro das 41 garotas, que especialmente os ossos longos, como o famoso fêmur, tinham uma grande perda de minerais. E aí precisamos nos lembrar que a adolescência é justamente a idade certa para o corpo ganhar massa óssea, formando uma poupança que irá usar ao longo da vida.

A anorexia, bem nessa época do desenvolvimento, impede a formação dessa poupança e ainda consome boa parte do que os ossos já tinham conquistado de reserva. Vale ressaltar: qualquer pessoa, que tenha sido anoréxica ou não, pode ganhar massa no esqueleto mais tarde, mas sempre com enorme esforço e, ainda assim, nunca será a mesma coisa.

Para piorar, reflita comigo: essas jovens mulheres foram acompanhadas por, no máximo, dez anos. Imagine então, se elas  já sofreram fraturas nesses primeiros anos de acompanhamento, o que lhes acontecerá lá adiante, quando chegarem na menopausa e os ossos, por natureza, se tornarem mais fragilizados?

Este é um problemaço que merece atenção, acompanhamento e todas as medidas para, ao menos, evitar que tudo descambe de vez para o esqueleto. No caso, o que se recomenda é fazer programas de exercício com pesos, os famosos exercícios de resistência, sem jamais abrir mão de boas fontes de cálcio na dieta todo santo dia, sem exceção, em especial laticínios.

Importante ainda tomar banhos de sol curtos rotineiramente para promover a produção de vitamina D pelo organismo. Zelando pelo o futuro dessas jovens que foram, um dia, anoréxicas, esse pacote de cuidados não é opcional. 

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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