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Cuidado: a dificuldade para dormir leva adolescentes a consumir remédios

Maurício de Souza Lima

12/12/2018 04h00

Crédito: iStock

Recentemente saiu um estudo no Journal of Adolescence Health, um dos mais respeitados periódicos científicos tratando da saúde dos jovens. Ele aborda o uso indevido de medicamentos por essa faixa etária. O trabalho é de pesquisadores de instituições da Espanha. Tudo ali merece atenção, como a mania de tomar estimulantes para render nos estudos — e aqui eu incluiria não apenas drogas para déficit de atenção, engolidas nas vésperas de provas (tema que já abordei neste blog), mas latinhas e latinhas de bebidas energéticas, consumidas com a mesma finalidade. O que mais me chama mais atenção, embora pareça óbvio: o aumento vertiginoso de pílulas para dormir entra os adolescentes da Espanha. Aposto com segurança: não deve ser nada diferente por aqui, no Brasil.

Nem é espantoso: o menino ou a menina, ainda mais em tempos de vestibular e de outras provas de final de ano, costuma tomar o estimulante logo que acorda, antes de ir para a escola. E, com frequência, lá pelas 22 horas, o sono simplesmente não chega. Claro que existem outros fatores: o uso do celular, a tevê ligada até tarde, a vontade de estudar um pouco mais. Mas o fato é que o relógio bate meia-noite e pronto: é hora de engolir algo para chamar o sono. E o organismo fica, então, na base do liga-e-desliga.

No trabalho espanhol, a substância mais consumida pelos jovens ainda é o álcool. O segundo lugar é ocupado pelo tabaco. A maconha fica com o terceiro posto. Em quarto, empatados, estimulantes e os tais remédios para dormir.

Aqui, no Brasil, há notoriamente um crescimento de insônia na mesma faixa etária, que eu também, já concordando com os pesquisadores espanhóis, atribuo ao aumento do uso desses medicamentos indicados para melhorar a atenção, com ou sem prescrição. Diga-se, infelizmente eles são receitados para jovens que não precisariam deles. Infelizmente, não raro, alguns colegas cedem à vontade até dos pais desses jovens. É um erro que precisa vir à tona.

Encontro, em especial nesta época do ano, adolescentes que andam dormindo duas ou três horas por noite. Então, fico sem saber o que é pior para a saúde: dormir tão pouco ou engolir hipnóticos e outros fármacos para conseguir adormecer. Lembrando: a necessidade de sono ideal na adolescência gira em torno de nove horas bem dormidas.

Ambos os hábitos, diga-se — dormir pouco ou tomar remédio para dormir — afetam a memória. O jogo, portanto, tende a terminar empatado, ou seja, o garoto estuda, estuda e estuda e, na hora H de um teste, mal se recorda do que leu no dia anterior.

Também há um risco importante, do qual não podemos nos esquecer: o de esses depressores da vigília serem consumidos pela moçada junto de álcool. A combinação é perigosíssima porque a bebida alcoolica aumenta o poder sedativo da medicação.

Mesmo que não aconteça nada grave, o uso indiscriminado desses medicamentos para chamar o sono — ainda mais nesse esquema de ligar-e-desligar, alternados com estimulantes — ocasiona pesadelos, irritabilidade, agressividade, confusão mental… Eu me pergunto: para quê? Vale a pena?

Por trás disso tudo, acho bem interessante fazermos todos a reflexão de que vivemos em uma era do "hiper-tudo". Nesse contexto, cobramos dos adolescentes um hiper-rendimento nos estudos. E, claro, também existem aqueles que não fazem nenhuma lição nem trabalho escolar, mal abrem a página dos livros, mas tentam compensar depois o longo período de preguiça para estudar de maneira  errada. Garanto: não dá certo. Até porque, como disse, é um tiro no pé em matéria de memória, para não dizer para a saúde do adolescente como um todo. Adolescência, em geral, não é época para tomar remédio para pregar os olhos.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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