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Adolescentes têm muita síndrome de burnout: saiba diferenciar do estresse

Maurício de Souza Lima

28/11/2018 04h00

Crédito: iStock

A expressão "burnout"  pode ser traduzida como esgotamento e é quando a vela queima todo o seu pavio. Há uns quarenta anos, foi usada na Suécia para denominar uma síndrome que se observava no ambiente de trabalho, acometendo executivos que não se davam um minuto de descanso e só se dedicavam à carreira até travarem física e emocionalmente.

Quem diria que esse assunto iria preocupar quem lida com adolescentes… E, no entanto, a síndrome de burnout se torna comum entre os jovens. Ela seria um passo além do estresse, por assim dizer. Estresse que, em um primeiro momento, não é de todo ruim, ao contrário: você sabe, ele que nos deixa alertas.

Ao se intensificar, porém, o indivíduo entra na fase que chamamos de resistência. É quando reações do corpo ao estresse, como o coração acelerado, se tornam muito frequentes. Alguns lidam com esses períodos estressantes bem e, de um jeito ou de outro, reencontram um equilíbrio — ora, os problemas e os momentos duros ou em que precisamos nos esforçar mais fazem parte da vida de todos.

Mas outras pessoas, porque são ou estão mais sensíveis, terminam esgotadas com uma fase de resistência prolongada. E então se tornam vulneráveis a doenças físicas e mentais. Aliás, boa parte das pessoas com burnout, evoluem para uma depressão profunda, não importa se é adolescente ou adulta.

No Brasil, o tema começa a ser discutido nas escolas e muitas delas já estão revendo a distribuição da carga horária e as abordagens em sala de aula.  Nas faculdades, há casos e mais casos de burnout entre os estudantes de Medicina, por exemplo.

O fato é que, no mundo atual, os jovens são cobrados a estudar sem parar, as horas de sono acabam sendo roubadas e — o que é um ponto importante para eu destacar — todos são incentivados a fazer tudo com enorme rapidez, correndo contra o relógio. Em parte, pensando nos alunos do Ensino Médio, para prepará-los para a corrida maluca do vestibular. 

O problema é que vem a exaustão — é quando se ultrapassa todos os limites que aquele indivíduo conseguiria suportar. E ela é um tiro no pé. O adolescente deixa de se sair bem até naquelas disciplinas em que aprendia com desenvoltura.

Por isso mesmo, quando me perguntam como diferenciar a síndrome de burnout do estresse de final de ano, aponto a produtividade como a melhor pista. Até costumo fazer a seguinte comparação: é como um maratonista que correu bem toda a prova, mas que, nos últimos 100 metros, mal consegue andar e, quando não cai esgotado na pista, ultrapassa a linha de chegada cambaleando. Assim é o adolescente com burnout: a queda brusca de sua produtividade é nítida. Ele já não consegue ler direito, muito menos escrever. Também mal consegue expressar o que está sentindo.

Não adianta, nesses momentos, forçar. Se você encontrar um jovem nessa situação, enquanto o pavio ainda queima, é melhor deixá-lo quieto por um ou dois dias. E depois tentar uma conversa para ver se, juntos, encontram alternativas para diminuir a pressão.  Mas, repito, não adianta querer levar esse papo no auge da crise. É preciso esperar a poeira baixar um pouco. Se não conseguirem enxergar saídas, talvez buscar ajuda profissional seja uma boa. Aliás, costuma ser. 

Sempre há um caminho para lidar com as situações de um jeito em que elas não nos esgotem. E é importante achá-lo, porque, sem ajudam a saída encontrada pelo adolescente esgotado costuma ser jogar tudo para o alto, abandonar o desafio, perder o ano ou o vestibular. E isso ninguém —muito menos ele — quer.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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