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No bullying, todos são vítimas, inclusive o agressor e quem assiste à cena

Maurício de Souza Lima

14/11/2018 04h00

Crédito: iStock

Quando ouvimos uma história de bullying, a primeira pessoa em que pensamos é na vítima, que, de fato, sempre acaba se prejudicando, ao deixar de ter um convívio social satisfatório. E, conforme a intensidade da agressão, ela se tornará uma pessoa mais vulnerável a crises de insegurança para o resto da vida adulta.

Mas não se engane: em uma cena de bullying, todos são coitadinhos. Não há exceção. Sim, até mesmo agressor, que geralmente tem problemas de comunicação e convivência tão fortes que só se sente bem rebaixando o outro, o que pode chegar a níveis extremamente patológicos. E, se não aprender a lidar com essa dificuldade precocemente, também apresentará sérios problemas depois.

Quem está ao redor, não se engane, sai igualmente perdendo. Ou o jovem se omite, com medo de uma retaliação, ou até participa da agressão, talvez pelo mesmo medo ou para se sentir parte de um grupo, vendo ilusoriamente algum benefício. Mas, no fundo, sente que há algo errado e, não raro, manifesta sinais de estresse que, em casa, os pais dificilmente associam ao episódio com o colega de classe — até porque nem os próprios jovem têm clara essa noção de que estão abalados pelo que viram acontecer a outra pessoa.

O bullying costuma arrasar com o ambiente — e não apenas destrói o  equilíbrio emocional da vítima (o que já não seria pouco). Por isso, noto que muitos colégios andam cada vez mais preocupados, tomando uma série de medidas para dar um basta nesses ocorridos.

Ao meu ver — e é também  o que os trabalhos na área apontam — uma das saídas mais interessantes é criar um grupo de três alunos, digamos, mais "neutros" em cada sala, especialmente designados a observar cenas de agressão veladas ou escancaradas. Porque tem mais essa: o bullying quase nunca acontece diante dos olhos do professor. Esse trio se reuniria de tempos em tempos com os orientadores pedagógicos para relatar casos que acham desconfortáveis. E assim os professores poderiam ficar espertos para ajudar os jovens a resolver a situação.

Em algumas escolas, a turma inteira sabe quem são esses alunos e eles costumam até intervir quando um colega faz alguma gracinha preconceituosa ou está louco para comprar briga. Outros colégios, porém, preferem omitir os seus nomes, achando que assim funcionaria mais… Não sei. 

O que sei é que bullying é algo tão frequente que os pais devem sempre que possível dar um jeito para abordar o tema, ficando atentos quando o filho faz uma piada sem graça em relação a um amigo (ele pode estar repetindo as mesmas palavras diante do tal colega). Ou quando filho chega em casa e, ao responder aquela pergunta clássica de como andam as aulas, contar que presenciou algo assim. Somos todos responsáveis para fazer com que esse tipo de cena acaba entre os nossos adolescentes. Bullying é, sim, uma questão de saúde física e mental. E uma questão das mais importantes nos dias atuais.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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