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Como descobrir se meu filho é alérgico a algum alimento?

Maurício de Souza Lima

24/10/2018 04h00

Crédito: iStock

Noutro dia mesmo me fizeram essa pergunta. A resposta mais objetiva que consigo dar é a seguinte: de uma hora para outra, os olhos podem inchar ou surgem reações de pele após o seu filho comer qualquer coisa. Ou, então, há uma falta de ar, porque a alergia ao alimento provoca bronco-espasmos. Mas, veja, nunca é tão simples, porque os sintomas não aparecem juntos e nem cabem todos os casos de alergias alimentares nessa descrição —talvez, a maioria.

Alergia é sempre uma má surpresa, que pode aparecer em qualquer idade e provocada por qualquer coisa. Quando a causa é um alimento, pode ser até mesmo aquele que sempre foi o favorito, com o qual a pessoa se esbaldava de boa até seu corpo dar um basta.

A primeira dificuldade é que nem sempre os pais e o próprio jovem associam manifestações cutâneas ou uma ligeira falta de fôlego ou, ainda, olhos empapuçados à comida que estava no prato. Pensam que pode ser um cisco ou até mesmo uma reação à picada de inseto ou a algo em que a pele encostou, como se fosse mais um caso de dermatite de contato. Todos se confundem até a história começar a se repetir com frequência e se tocaram que esse repeteco tende a acontecer durante ou após as refeições.

Tive um paciente adolescente de 20 anos que amava restaurante japonês. Em um belo dia, ele se levantou do balcão de sushi sentindo uma coceira chata nas pernas. E assim foi. Aconteceu mais de uma vez e isso despertou a desconfiança.

Quando uma suspeita dessas aparece, é preciso levantar tudo o que foi consumido e descartar uma por uma todas as possibilidades. Isso é, todos os ingredientes consumidos. Há, hoje em dia, um exame chamado Isac, que avalia possíveis reações alérgicas disparadas por mais de 100 moléculas presentes em mais de 50 alimentos. Para quem pode realizar esse teste molecular, a acusação dos culpados costuma sair depressa e ser certeira. A alternativa, quando não há a chance de fazer o exame, é persistir na investigação com paciência, quase que por tentativa e erro.

Nem sempre vale um raciocínio simplista. No exemplo que dei do rapaz, claro que a tentação foi culpar de cara o peixe cru. Que nada! No caso dele, a alergia era ao saquê —como já era maior de idade, resolveu acompanhar as refeições preparadas pelo sushiman com uma dose da bebida. Sabendo disso, deixou de pedir o drinque ao garçom e continuou aproveitando as iguarias japonesas sem ter de terminar o jantar se coçando inteiro.

Preciso dizer que muitas reações alimentares são cruzadas. Ou seja, o organismo é alérgico a uma molécula presente em mais de um alimento. O Isac, aliás, fornece um laudo que, na verdade, é um painel com todos os possíveis alimentos capazes de desencadear uma alergia em determinado sujeito.

Existem ainda alergias alimentares imprevisíveis, como todas, só que muito mais violentas, levando a um inchaço do corpo generalizado, que costuma engrossar a língua e fecha a glote, impedindo a passagem do ar pela garganta. Uma crise dessas precisa de socorro médico imediato porque, se nada for feito, será fatal. Daí, a investigação do culpado se torna vital para evitar novos e perigosos sustos.

Deixe eu lembrar que, quando a pessoa desenvolve alergia a um alimento, seja qual for a intensidade da crise, dali em diante ela sempre manifestará reação quando ingerir qualquer porção daquela comida, por menor que seja —será suficiente uma única mordiscada em algo com aquele ingrediente. E isso, aliás, é uma das diferenças em relação a alguns quadros de intolerância, como à lactose. Aí, em geral, o indivíduo apresenta reações a partir do momento em que a ingestão de leite e seus derivados ultrapassa determinada quantidade, que difere de um organismo para outro.

As diversas intolerâncias, diga-se de passagem, não são reações alérgicas. No caso delas, em vez de o problema ser provocado por uma reação do sistema imune a alguma molécula presente na comida, há uma dificuldade do organismo para processar um componente do alimento. E, então, surgem desconforto no aparelho gástrico e até mesmo diarreias. As dores de barrigas, vale aproveitar para esclarecer, também são sintomas de uma intoxicação aguda, quando o seu filho come algo estragado ou contaminado. Ou seja, não são pista de uma alergia

Vou resumir: se as cólicas aparecem uma vez na vida e outra na morte, aposte mais que são episódios de intoxicação alimentar. Caso se repitam, desconfie de uma intolerância e busque o médico. Agora, se o problema for uma coceira, pálpebras inchadas ou algo assim, isso é pista de alergia alimentar.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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