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Blog do Maurício de Souza Lima

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Devemos perder o receio de vacinar os adolescentes contra o HPV

Maurício de Souza Lima

11/07/2018 04h00

Crédito: iStock

Mais da metade dos jovens entre 15 e 25 anos apresentam algum dos cerca de 150 subtipos do papilomavírus humano, o HPV. Só que, entre essa moçada infectada, 38% carregam um dos tipos associados a lesões que podem levar, no futuro, a um câncer. O principal deles é o de colo de útero, cuja culpa do HPV no cartório é bem clara. Mas há também vários casos de tumores de ânus, vagina, vulva, pênis, boca e garganta nos quais, desconfia-se que, esse vírus também tem sua participação.

Diante desse cenário, na minha opinião fica evidente: as pessoas precisam perder o medo de vacinar os adolescentes contra essa infecção. Sabemos que, na maioria das vezes, o sistema imunológico até consegue livrar o organismo de sua presença. Mas, naqueles casos em que o HPV resiste, ele talvez forme verrugas nos genitais ou, bem pior, como já mencionei, existe a possibilidade de desencadear um câncer. E é muito bom saber que uma vacina poderá livrar nossos filhos do risco de um tumor. Diga-se, a prevalência da infecção entre os jovens vem aumentando demais.

O imunizante, oferecido pela rede pública, tem uma eficácia de 98%, isto é, altíssima. Os casos de reações adversas são pontuais, raros e isolados, ao contrário do que muita gente imagina. Mas eu percebo que boa parte das pessoas teme mesmo é outra coisa. Por mais louco que pareça, elas ficam com receio de estimular um início de vida sexual precoce, já que a vacina deve ser dada a partir dos 9 anos em meninas e depois dos 11, nos meninos. Muitos pais pensam: é cedo demais para eu proteger meu filho ou minha filha contra uma infecção sexualmente transmissível, ele ou ela só irá transar lá adiante. E isso, ao meu ver, é uma tremenda bobagem.

Aliás, em parte por isso, hoje pouco mais de metade das adolescentes brasileiras estão imunizadas contra o HPV e só 8% dos garotos, apesar de a vacinação ser gratuita.  Para ambos os sexos, a vacina deve ser aplicada antes dos 15 anos nos postos de saúde.

Quando os pais questionam por que vacinar a garotada tão cedo contra uma infecção sexualmente transmissível, rebato: o vírus da hepatite B também é transmitido basicamente pelo sexo e, no entanto, seu filho foi vacinado contra ele quando ainda estava no berçário, mal tinha acabado de nascer. Portanto, que sentido faz esse preconceito agora?

Não é uma simples vacina que antecipará o início da vida sexual de um garoto ou de uma garota, é óbvio. Aliás, o quanto antes o jovem for vacinado, melhor. Porque o HPV não depende de uma relação sexual completa, com penetração, para ir de um organismo para o outro. Bastam as primeiras carícias, as primeiras brincadeiras sexuais, os primeiros toques, um contato um pouco mais íntimo na fase das descobertas e — pronto! —  a transmissão pode acontecer com muita facilidade.

Outro esclarecimento importante: também não adianta pensar que o seu filho ou a sua filha lembrará da camisinha quando chegar o momento de transar. Pode ser que sim. Aliás, tomara. A questão é que o HPV pode estar até na base do pênis, onde o preservativo não alcança. Camisinha não é eficaz para proteger contra essa infecção.

A vacina oferecida nos postos de saúde é ótima porque é a quadrivalente, isto é, ela protege contra quatro dos mais preocupantes subtipos do vírus, o 6 e o 11, que provocam verrugas nos genitais, e ainda o 16 e o 18, por trás do surgimento de tumores malignos. Antes, eram dadas três doses. Hoje se sabe que, com apenas duas, o adolescente estará protegido do HPV e é nisso que os pais deveriam pensar.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.