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Nicotina vicia: jovens que fumam precisam de ajuda para largar o cigarro

Maurício de Souza Lima

06/06/2018 04h00

Crédito: iStock

Na semana passada, no 31 de maio — o Dia Mundial sem Tabaco — me chamou a atenção o levantamento da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Segundo os dados, 30% dos adolescentes brasileiros entre 13 e 15 anos já experimentaram o tabaco. Muitos deles, antes dos 12. Infelizmente, não me espanto.

O cigarro costuma ser apresentado cedo em festinhas. As gerações mudam e isso permanece. O garoto ou a garota– pela minha observação,  hoje os dois andam fumando igual — se sente intimidado ao ver que o grupo inteiro está dando suas primeiras tragadas. E, em determinado momento, isso até pode parecer legal, um sinal de que todos estão crescendo e que são donos do próprio nariz. Nariz que aspira toda aquela fumaça.

A novidade é a versão eletrônica que, por mais que seja proibida, vem sendo cada vez mais encontrada em centros urbanos. Nela, usa-se um líquido que, com frequência, contém nicotina também. E não adianta: a nicotina causa muita dependência, não importa a fonte.

Por isso mesmo, a primeira conversa com o jovem deve ser no sentido de alertar que não tem essa história de fumar só na balada. Nicotina chama nicotina e, quando ele se der conta, não conseguirá largar o cigarro. Os malefícios, aliás, são otimizados quando o consumo se dá junto com o álcool, também presente nas baladas. 

Outro argumento que, ao meu ver, cola bem mais, é aquele na linha “você vai cair nesta?”. Vale mostrar os números da indústria do tabaco e apontar o quanto o jovem está sendo manipulado por esses fabricantes. Adolescentes odeiam ser usados–tente usar isso em favor da saúde deles.

Alguns especialistas  falam que fumar durante a adolescência pode atrapalhar o desenvolvimento, comprometendo até mesmo a estatura. Pode até ser, em casos extremos, da rapaziada que fuma demais. Para a maioria, independentemente do número de cigarros, os grandes prejuízos são os mesmos do tabagismo na vida adulta: as artérias se tornam danificadas. Surgem inflamações por todo o corpo, que poderão detonar ou agravar uma série de doenças crônicas. Pulmões, boca e bexiga, em especial, podem sofrer mutações nas células que levarão, anos adiante, ao câncer.

Mas aí é que está: são efeitos a longuíssimo prazo e, para um adolescente, dizer que ele poderá infartar um dia vai soar surreal. Isso dificulta bastante o diálogo. Os jovens se sentem eternos e onipotentes. Não pensam tanto no que seu organismo poderá sofrer amanhã ao dar suas baforadas entre amigos.

Não seja ingênuo, também, de achar que funciona dar bronca para apagar o cigarro do seu filho de vez. Ora, justamente porque a nicotina vicia, ninguém consegue largar esse hábito de boa. Muito menos porque isso está irritando seus pais. Quem deixa de ser tabagista com facilidade é exceção. Então, se você sentir que seu filho está mesmo disposto a abandonar o cigarro, leve-o ao médico. Como qualquer pessoa que fuma, não importa a idade, ele talvez precise até mesmo se ajuda farmacológica para se afastar da nicotina.

Mas a vontade do próprio adolescente para passar pelo tratamento é fundamental. Se o jovem não estiver a fim de largar o maço de cigarro, sinto dizer, não há nada que possa ser feito. Já se ele realmente pretende deixar a nicotina no passado — e quanto mais cedo parar, melhor — ótimo. Ponto para a saúde.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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