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Blog do Maurício de Souza Lima

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Por que os adolescentes, às vezes, querem escapar da hora do chuveiro?

Maurício de Souza Lima

11/04/2018 04h00

Por que adolescente não gosta de banho

Crédito: iStock

Os filhos nascem e os pais lhes dão banho. Aí eles crescem e aprendem a se banhar sozinhos. Até que chega aquela fase, em geral bem no início da adolescência, na qual eles parecem fugir da água.

É a história que se repete na casa de quase todos: os pais ordenam dez vezes que o filho vá para o chuveiro e ele repete que está jogando a última partida do videogame ou algo assim. Que, diga-se, não termina nunca. Aliás, é preconceito achar que isso ocorre só com os garotos. Adiar o banho também é um comportamento que pode aparecer nas meninas. Isso quando os adolescentes não batem a porta do banheiro, deixam a água jorrar por exatos 27 segundos, fecham as torneiras e consideram a missão da higiene cumprida.

Por volta dos 10, 11 anos, eles muitas vezes nem percebem que seus hormônios, entrando em ebulição, fazem com que exalem novos cheiros, nem sempre os mais agradáveis — o do suor nas axilas, o do chulé que fica bem mais intenso… Surgem ou deveriam surgir novos hábitos que eles demoram para incorporar: por exemplo, criança não usa desodorante. Então, por um tempo, pode ser que seu filho o esqueça abandonado na pia.

No começo da adolescência, ele simplesmente não entende a necessidade daquilo tudo: passar desodorante para quê? Não percebe direito as mudanças corporais que costumam chegar à frente das que acontecerão em sua cabeça. Ora, a cabeça continua a da criança que quer se divertir apenas. Para ela, nada mais aborrecido do que ganhar uma nova obrigação. E o banho, nessa fase de transição, pode virar bem isso: uma obrigação extra lhe arrancando de coisas que seriam mais divertidas.

Por incrível que pareça, sem ter muita consciência disso, enganar o adulto dizendo que já foi para o chuveiro, algo até que bastante comum, é uma atitude na linha do ir contra as regras, algo esperado na adolescência.

Isso só muda quando algum episódio dificulta o seu contato social, por assim dizer. Quando alguém fala do seu cheiro, um amigo tira sarro… Ou, claro, quando esse garoto ou essa garota fica interessado em alguém.

Mas existe, sim, com maior ou menor frequência, essa fase em que se afastar dos hábitos de higiene vira quase que uma forma de transgressão. Assim como a mania de não trocar de tênis, nem deixar aquele par de calçado que vive em seus pés tomar um pouco de sol.

Quando um jovem fica descalço no consultório e eu percebo o cheiro dos tênis ou dos próprios pés descalços, tento avisá-lo de maneira bem natural. É interessante que ele perceba que os outros sentem esses odores. Muitas vezes, escuto: “nossa, eu não sabia que tinha chulé!” . E eu acredito que ele não sabia mesmo.

Portanto, o que recomendo aos pais é que, mais do que ficar perguntando insistentemente se o filho já tomou banho, eles comecem a dar esses pequenos toques. E, claro, devem providenciar o que for necessário, comprando um bom desodorante, por exemplo. Às vezes são os próprios adultos que demoram a notar que, aos 10 anos, seu menino ou menina precisará disso.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.