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Blog do Maurício de Souza Lima

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Gonorreia correndo solta é mais um motivo para os pais falarem em camisinha

Maurício de Souza Lima

21/02/2018 04h01

Camisinha

Crédito: iStock

Depois do Carnaval, como infelizmente já era de se esperar, surgiram alguns casos no meu consultório — e eles também devem de aparecido diante de muitos colegas que atendem adolescentes. O menino sente um ardor insuportável na hora de urinar, tão terrível que evita até beber água só para não precisar ir ao banheiro. É ali, na uretra dele, que se aloja a bactéria causadora da gonorreia, doença sexualmente transmissível que está voltando com tudo.

Nas meninas, esse sintoma não é tão expressivo porque o micro-organismo se multiplica no canal da vagina. Com maior frequência, elas sentem uma dor pélvica e apresentam um corrimento amarelado. O fato é a infecção pode levar a garota à infertilidade.

A gonorreia é transmitida nas várias formas de relação sexual. Até o sexo oral pode fazer um jovem passar a doença para outro. Pior,  está se tornando resistente aos antibióticos usados no tratamento. No entanto, cerca de 78 milhões de indivíduos ao redor do mundo se infectam a cada ano — de adolescentes  a sexagenários. Não tem idade. Mas o fato de a infecção se tornar a cada dia mais comum meninos e meninas que mal iniciaram sua vida sexual me faz perguntar: os pais não estão falando sempre sobre o uso de camisinha? Fazem isso menos do que deveriam ou de forma equivocada?

Claro, não temos só o risco de gonorreia. São muitas as doenças sexualmente transmissíveis. Diga-se que a infecção por HIV continua bastante preocupante e ameaça demais os adolescentes. Por isso sempre alerto os adultos sobre a importância de viver retomando o assunto da proteção com seus filhos. Mas, atenção, é preciso acertar na abordagem dessa conversa.

Os jovens não precisam ouvir de novo e de novo que deveriam usar a camisinha. Ora, eles sabem disso! Nunca encontrei um adolescente, tanto na clínica particular quanto no hospital público, que não soubesse o que era um preservativo, para que servia, como comprar e tudo mais. Eles dominam esse conhecimento. Daí a gente se pergunta: por que não usam?

Os jovens não usam  camisinha por causa de algo típico dessa fase: o pensamento mágico. Acreditam que nunca nada errado irá acontecer com eles e acreditam nisso mais ainda quando conhecem a pessoa com quem transam. Como se, pelo fato de o menino ou a menina ser da mesma sala de aula, primo ou prima do vizinho, colega de infância ou algo assim, não, aquela pessoa não poderá lhe transmitir uma doença, nem aquela transa poderá resultar em uma gravidez. Errado. E penso que é mais essa abordagem que os pais deveriam ter: a de mostrar que não há pensamento mágico que proteja contra as DSTs.

No entanto, por incrível que pareça, muitos pais ainda se sentem constrangidos. Já vi caso de uma família em que a garota transava com o rapaz em casa e, para não deixar pista, jogava o preservativo no vaso sanitário. Um dia ele entupiu e os pais caíram para trás quando o encanador lhes mostrou a causa.

Também há casos de mães ou de pais que se espantam quando encontram camisinha no quarto do jovem, achando que ele é ainda muito criança para transar. Na verdade, pais que descobrem sem querer que o filho ou a filha já está transando porque encontram uma camisinha deveriam respirar  muito aliviados, isso sim. E mais do que isso: deveriam incentivar o filho ou a filha a continuar se protegendo. Se duvidar, até dar os parabéns.

Se esse é o tipo de diálogo difícil para uns, então melhor que expliquem seu constrangimento a um profissional de saúde e deleguem a tarefa. Não é o ideal, mas pior será deixar o adolescente sem esse diálogo sobre sexo seguro.

Não acho, porém, que os pais devam presentear os filhos com preservativos. Não é assim que funciona. Isso pode ser uma forçada de barra para o adolescente falar da vida sexual dele — e, atenção, a vida sexual é dele, sua intimidade precisa ser preservada.

Também não acho eficaz chamar para um papo sobre camisinha, como quem reserva um momento especial para isso e vai dar lição de moral. Os pais devem esperar uma oportunidade qualquer, bem trivial,  para puxar o assunto. Pode ser uma notícia que saiu no jornal, por exemplo. Aliás, como o assunto é sério e o pensamento mágico pode bater de surpresa até naqueles jovens que vinham se protegendo, vale ter várias conversas dessas, sempre que algo criar a chance de o tema vir à tona.

E, ao meu ver, nenhum pai precisa esperar o momento em que sente que o filho ou a filha está iniciando sua vida sexual. Sabemos, por pesquisas, que a meninada de ambos os sexos começa a ter relações por volta dos 15 anos no Brasil. Então, sugiro que o assunto da proteção  comece a ser abordado pelo menos a partir dos 12 anos. Sim, é preciso fazer a cabeça do seu filho com antecedência. O pensamento mágico não se desfaz em um só papo, nem de hora para outra. A não ser que aconteça um susto —  uma DST, por exemplo. E é o que ninguém quer.

Aos pais que têm medo de que isso acelere as coisas, aviso: nunca vi nenhum adolescente iniciar sua vida sexual só porque conversou sobre camisinha.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.