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Como lidar com o filho adolescente quando ele chega alcoolizado em casa

Maurício de Souza Lima

14/02/2018 04h01

Adolescente bebado

Crédito: iStock

Teoricamente, apenas quem tem mais de 18 anos pode beber. Ora, por lei, a bebida alcoólica só deve ser vendida a maiores de idade. Na prática, porém, o que a gente vê é muito jovem, às vezes bem no início da adolescência, consumindo álcool.  Não podemos negar: a situação existe e é recorrente. O Carnaval, inclusive, pode ter deixado isso claro na sua casa.

O menino ou a menina experimenta a bebida por curiosidade e, claro, para pertencer ao grupo de amigos. Bebe principalmente para transgredir. Mas, e aí? O que fazer para lidar com a situação quando, ao pisar em casa, você percebe que ele andou bebendo? Ou quando vai buscá-lo em algum canto e nota que ele ou ela entra no carro muito mais alegre do que o normal? Talvez, ao contrário, o adolescente pareça sério e calado demais para quem acaba de sair de uma festa — sim, o álcool também pode causar essa introspecção.

Difícil mesmo é quando há uma intoxicação alcoólica. Em outras palavras, quando você se vê diante de um adolescente que caiu na bebedeira e está tonto, por vezes enjoado ou passando mal, quase caindo. Nessas horas, observo que o comportamento dos adultos varia bastante.

Alguns pais, a pretexto de cuidar, querem no fundo aplicar um castigo imediatamente no filho e, por exemplo, metem o jovem sob o chuveiro gelado. Essa é uma ideia infeliz. Aviso: o banho de água fria nunca curou nem vai curar a bebedeira de ninguém. No máximo, seu filho irá tremer de frio e poderá até pegar um belo resfriado. Desista.

Desista também de fazer o garoto ou a garota se sentar à sua frente para lhe aplicar o maior sermão. Use a cabeça: não é o momento. Quem está alcoolizado, mesmo que levemente, não tem a menor condição de ouvir. E, ainda que ouça o que você está falando, no dia seguinte nem irá se lembrar. Sob efeito do álcool, a memória mal e mal grava qualquer coisa. Você irá desperdiçar suas palavras. Por isso, adie qualquer conversa. Seu filho, especialmente se bebeu muito além da conta, precisará de sossego para ficar bem.

O importante em um quadro de intoxicação aguda — isto é, quando o adolescente está bêbado pra valer — é tomar algumas medidas que, como dizemos no jargão médico, possam dar suporte à vida. Se não é caso de levar para um hospital, então deixe o menino ou a menina confortável para descansar, provavelmente dormir. Importante: o mais seguro é deitá-lo de lado.

É bem possível que o jovem alcoolizado vomite. Se estiver deitado com a barriga para cima, irá aspirar o vômito e este, então, vai parar nos pulmões, provocando uma pneumonia química.

No dia seguinte, é muito raro o garoto ou a garota não sentir nada. Provavelmente, a criatura amargará alguns reflexos do álcool consumido na véspera, nem que sofra apenas de uma leve dor de cabeça.

Por isso mesmo, aconselho aos pais: o dia seguinte é que oferece a melhor ocasião para puxarem uma conversa sobre o ocorrido. Graças justamente ao mal-estar físico, qualquer advertência dos adultos fará mais sentido. Ou seja, aumentam as chances de o filho entender que passou dos limites.

Mostre, com calma, toda a sua preocupação. Use a razão apontando que ela não é motivada apenas pelos valores da sua família — que devem ser colocados à mesa, se for o caso —, mas por probabilidades concretas que não são nada legais, como a de ele ser atropelado por falta de reflexos, ser assaltado por dar bobeira, pegar carona com o amigo mais velho que também bebeu, contrair uma doença sexualmente transmissível… Enfim, as encrencas acontecem quando alguém perde o controle da situação ao redor, o que infelizmente é comum com pessoas que bebem demais. 

Mas muita atenção: acolha o seu filho adolescente. Demonstre que você não quer vê-lo colocando a vida em risco e que este é  — ou deveria ser — o ponto.

Aproveite a conversa para levantar os motivos que o fez beber desse jeito. Se ele vier com o papo de que os amigos estavam bebendo, retruque: ora, meu filho, então você está me contando que ainda não tem maturidade para sair em grupo! Talvez a gente deva esperar que cresça um pouco mais.

No caso, pode até ser uma boa propor o acordo de que ele ou ela ficará em observação nos dois meses seguintes, por exemplo. E que, se não der certo, talvez seja o caso de proibir que saia com certo grupo de amigos ou para determinado canto. Claro, isso só funciona com os adolescentes mais novos — e não, não é fácil.

Quando o jovem é mais velho, maior de idade, aja até aqui do mesmo jeito: cuide, prepare algo leve para ele comer no dia seguinte e, daí, converse. Mas, claro, esqueça proibições. Para quem já passou dos 18, dos 20, dos 21 anos e que, apesar de ainda ser classificado como adolescente do ponto de vista da saúde, pode ser dono do seu nariz, de nada adiantam ameaças.

A única saída, então, é mesmo olhar nos olhos, sem berros, e deixar que o jovem literalmente veja a sua angústia e compreenda os seus motivos. Esse olhar sincero e doído, capaz de comover — sem garantias, porém, de que comoverá —,  é a única medida ao alcance dos pais. Mas, com a devida serenidade, um olhar paterno ou materno nunca é pouca coisa.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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