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Blog do Maurício de Souza Lima

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O problema de exagerar no álcool e nos energéticos nas baladas

Maurício de Souza Lima

24/01/2018 04h00

O problema de abusar da bebida

Crédito: iStock

Os jovens estão bebendo mais cedo e com uma frequência maior. Isso é fato. Para muitos deles, as festas que não oferecem bebida alcoólica são bastante desinteressantes. E, apesar de a lei ser clara, proibindo o consumo para menores de 18 anos, a gente vê que existem até mesmo marcas que parecem desenhadas desenhadas para agradá-los.

Algumas delas têm bem mais do que o dobro do teor alcoólico do que a média de uma cerveja, que gira em torno de 4,5% ou 5%. As vodcas flavorizadas, por exemplo, têm cerca de 14%. Menos, bem menos do que a vodca tradicional com seus 40%, é a pura verdade. Mas, ainda assim, um volume alto para um organismo em plena adolescência. E a meninada acha que está tomando suquinho de limão…Não está.

Para um fígado que começa a se acostumar a processar determinadas substâncias, é um desastre. Lembrando ainda que o álcool se espalha pelo corpo todo — vai parar até mesmo nos músculos e nos ossos desses jovens. Consumido com frequência, atrapalha um bocado o desenvolvimento.

Sem contar que trabalhos demonstram o seguinte: quanto mais cedo o indivíduo começa a beber, maior o risco de se tornar dependente do álcool no futuro, especialmente se existem pessoas com o problema do alcoolismo na família. Esse, porém, é apenas um aspecto.

E a realidade é que, tapando os olhos para os riscos, muitos pais cedem à pressão. O garoto vai dar uma reunião em casa e diz à família que gostaria que tivesse tal bebida. Ou já a avisa, de antemão, que os amigos irão trazer algumas garrafas. Aí o adulto fica sem saber o que fazer. Você quer minha opinião? Sempre digo para não ceder. No mínimo, pela implicação legal: o pai que aceita essa condição passa a se responsabilizar por todos os adolescentes menores de idade naquela festa. Ponto.

Claro que bancar essa decisão de negar a presença de bebida, totalmente contra a vontade do adolescente, sempre gera uma reação forte. Prepare-se. Afinal, faz parte da adolescência não só uma certa prepotência como um sentimento de invulnerabilidade: o jovem acha que, com ele, não vai acontecer nada. Só que acontece. E acontece cada vez mais. Deixe que fique nervoso.

Para piorar, nessas festas movidas a álcool, observo que garotos e garotas cometem erros básicos. Primeiro, beber de estômago vazio. Segundo, dar o tal do shot. Note que o corpo leva aproximadamente 40 minutos para metabolizar o álcool. Só que o menino dá o shot, não sente nada e, um minuto e meio depois, dá outro. Pensa até que é forte para a bebida. Ilusão.

O terceiro ponto é que todo álcool é diurético e faz a pessoa perder água. Sem líquido, as reações do organismo emperram. Tudo piora.  Para contrabalançar, seria fundamental que a rapaziada tomasse líquidos não alcoólicos entre um gole bebida e outro. Mas não é o que costuma ocorrer. E, desse modo, a situação  se agrava. Tornam-se mais freqüentes casos de coma e parada cardíaca na adolescência. Porque — apesar de em um primeiro estágio todo mundo parecer mais aceso e desinibido ao começar a beber —, o álcool é sempre um depressor do sistema nervoso, como se o desligasse aos poucos.

É o tal do "dar PT", ou seja, dar uma "perda total". Em geral, o jovem primeiro dorme ou até mesmo desmaia. Mas, se logo acorda e volta a beber, o risco de problemas graves é enorme.

Pior de tudo, fiquem sabendo, é a mistura com energético que, por si, ao menos  em uma dose única, não faria mal. Ele tem mais ou menos 80 miligramas de cafeína, o que isoladamente não seria grande coisa. O perigo, porém, é misturar no mesmo copo uma substância depressora, o álcool,  com outra que é estimulante. Não pensem que uma anula ou compensa a outra — engano que até adultos cometem. Nada disso. Fazer essa mistura é a mesma coisa de dirigir um carro e engatar a primeira e a marcha à ré ao mesmo tempo. A mesmíssima coisa. O corpo entra em pane.

E o que posso dizer? O de sempre: tente conversar com seu filho. A melhor prevenção contra todos os males na adolescência é o diálogo. Fale sobre o teor alcoólico enganador de certas bebidas, sobre a importância comer algo durante a festa, sobre tomar água a todo instante, sobre evitar misturas com energéticos… Fale, antes de mais nada, que seria ótimo se ele esperasse um pouco mais para beber.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.