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Acredite: jovens têm o que podemos chamar de depressão de férias

Maurício de Souza Lima

19/06/2019 04h03

Crédito: iStock

Não é um sintoma raro quando o semestre termina. Talvez você já tenha visto acontecer em sua própria casa algo parecido: sem a rotina das aulas, especialmente se os melhores amigos estão prestes a viajar, o adolescente primeiro se recolhe. Então, dorme todas as horas a que tem direito, como se quisesse ir à forra com as noites maldormidas.  Daí começa a mesmice de ficar dez horas ou mais no celular ou no tablet, intercalando com a televisão, até anoitecer novamente. 

Se alguém da família o chama para sair, ele não se anima a largar a cama nem o sofá. É o tédio em forma de gente.Isso não é necessariamente uma depressão, problema que seria bem mais grave. Mas, sim, pode servir de gatilho para uma crise depressiva que já estava na iminência de acontecer. E, de qualquer modo, precisamos olhar para o fenômeno com um pouquinho de reflexão.

Antes, férias — mesmo quando as famílias não podiam viajar — eram sinônimo de arejar os dias. De sair de casa para ir ao cinema, frequentar mais a casa dos amigos e vice-versa. Se voltarmos um pouco mais a roda do tempo, ficando distantes dessa época de maior violência, a garotada no passado nem tão remoto andava de bicicleta, batia bola na esquina, ia tomar um sorvete em algum canto, sem muita complicação nem a necessidade de chamar um carro por aplicativo. 

Todas essas atividades eram associadas à temporada de pausa nas aulas. Agora não! E o problema maior não é tanto o adolescente ficar trancafiado no quarto, embora isso seja uma característica não tão legal dos nossos dias. O verdadeiro problema podem ser relações sociais enfraquecidas. E isso merece atenção.

Sei que pode soar até careta, mas a convivência social está se perdendo ultimamente. Os relacionamentos virtuais não substituem o olho no olho. Repare: muitas vezes, aquilo que um garoto ou uma garota tem coragem de escrever para um colega no WhatsApp ele não conseguiria pronunciar cara a cara. Seja algo legal ou seja uma discussão mais feia.

A moçada, quando deve  tomar a iniciativa para ter um contato real, já não sabe como agir direito. Se está no colégio, fica fácil: querendo ou não, todos os colegas estão lá. Se surge uma balada, o encontro com os amigos acontece sem esforço. No entanto, se é preciso tomar a atitude de procurar para inventar algum passeio, bater um papo, ainda mais se os amigos mais próximos estão longe viajando e só restaram aqueles com quem se tinha menos contanto, a coisa toda se complica.

Não saber procurar o outro, não ter habilidade para puxar uma conversa ou até mesmo não aceitar fazer algo diferente quando convidado, achando tudo chato e aborrecido, demonstra uma espécie de falta de treinamento social dos jovens nos tempos modernos. E, como sabemos que construir relações significativas é fundamental para afastar uma depressão pra valer — na adolescência ou no futuro —, essa tristeza das férias não pode ser minimizada. 

Encare suas causas serão resolvidas antes das voltas às aulas. A solução demanda paciência. O que é preciso? Promover mais contatos presenciais dali em diante. Estimular a troca, o diálogo, a ousadia de se aproximar de pessoas diferentes. Até porque, pensando em adolescência, algumas universidades hoje — seguindo o que já é realidade lá fora — consideram muito a capacidade de um jovem interagir em grupo. E essa capacidade, na vida real que as férias desmascaram, pode andar em falta.

Sobre o autor

Maurício de Souza Lima é hebiatra, ou seja, um clí­nico geral especializado na saúde de adolescentes. Doutor em Medicina pela Universidade de São Paulo, é autor do livro “Filhos Crescidos, Pais Enlouquecidos” (Editora Landscape), vencedor do Prêmio Jabuti em 2007.

Sobre o blog

Aqui, Maurí­cio de Souza Lima pretende abordar de maneira leve e objetiva todas as questões de saúde que podem preocupar ou despertar a curiosidade dos próprios adolescentes e dos seus pais. Aliás, prefere dizer que irá falar sobre a saúde da juventude, lembrando que oficialmente a adolescência começa aos 10 anos, mas em tempos modernos, na prática, pode se estender para bem mais de 21 anos.

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